sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Identidade Nacional

Este tema é um debate bem “batido” que muitos já fizeram, fazem e tantos outros tentaram fazer. Mas até hoje tem gente que diz que nossa identidade nacional é o futebol e a rede globo. Ontem mesmo uma pessoa que adoro, me disse isso, olha sinceramente não dá pra acreditar que existem pessoas tão desconectadas do país.
Por isso trago uma discussão acerca da identidade nacional. Para começar a história, apesar de estamos “carecas” de saber, que a identidade nacional não é uma só, algumas pessoas querem simplifica - lá, como se pudesse jogar fora em toda elaboração cientifica com aspirações superficiais, a estes recomendo Renato Ortis em sua obra “A Cultura Brasileira e Identidade Nacional”. Onde autor procura mostrar que a identidade nacional está profundamente ligada a uma reinterpretação do popular pelos grupos sociais e à própria construção do Estado brasileiro. Não existe, assim, uma identidade autêntica, mas uma pluralidade de identidades, construídas por diferentes grupos sociais em diferentes momentos históricos.
Durante o período da segunda guerra mundial para estampar “identidade” do brasileiro, foi levantado o debate sobre a “verdadeira identidade nacional do Brasil”, como se isso fosse possível. Mas foi, pelo menos para alguns teóricos, artistas populares ou não (outro termo de grande dificuldade de análise), intelectuais, folcloristas, enfim, uma gama de especialistas se colocaram a debater sobre o tema.
Mesmo com o aumento crescente em torno da questão, foi em finais da década de 50 e início de 70 que o debate ganhou força. Principalmente com o aumento das discussões em torno das reformas de base, proposta em 1962, o que implicava desde a reforma agrária, passando pela educação e chegando até ao setor cultural. Esse trabalho pode ser observado em projetos como o Movimento de Cultura Popular (MCP) no Recife, durante o governo de Miguel Arraes, tendo a frente o educador Paulo Freire.
Na cultura essa discussão pode ser observada no trabalho que era realizado pelo grupo de teatro Arena, que mais tarde serviu como base para o trabalho do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes – o CPC da UNE. O trabalho realizado pela entidade buscava uma politização massificada da população com projetos sobre a identidade nacional do brasileiro, a qual deveria entendida a partir do homem do campo, das raízes brasileiras - ? Essa tentativa de forjar uma identidade nacional também encheu os festivais de musica promovidos pela Rede Record de Televisão com canções de Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano e tantos outros que conhecemos. Essa relação da identidade nacional com a música fez criar certa desarmonia naquele instante. A nova estética apresentada pelo movimento Tropicalista, assim como suas críticas em torno do nacionalismo exacerbado das produções culturais nacionais, fizeram com que o movimento surgido em meados da década de 1960 fosse hostilizado e até mesmo seu trabalho associado “com o grupo que tomou o poder em 1964”.
De acordo com Maria Rita Kehl, em seu livro “Um país fora do ar – histórias da TV brasileira em três canais”, a crescente urbanização no Brasil nas décadas de 1960 e 1970, fez surgir a necessidade da criação e formação de novos hábitos, configurada por uma espécie de “reeducação” de grande parte da população brasileira, visando sua adaptação aos padrões de comportamento e consumo que surgiam e se formavam naquele instante nas grandes cidades. Nesse sentido, a adaptação do “novo homem” ao modelo de desenvolvimento político e cultural é caracterizada através de uma perspectiva de identificação, oferecida, principalmente, “via televisão e via consumo”, pois, “é preciso educar esse novo mercado de trabalho e consumo” e assim criar novos hábitos para um “homem novo”.
Para isso, a partir de 1968, além de mecanismos de repressão, o governo militar também criou diversos instrumentos para facilitar o acesso desse novo homem ao momento que surgia, ou seja, de acordo com Maria Rita Kehl, foram tomadas diversas medidas para facilitar a liberação de crédito ao consumidor, que eram apresentadas, como “medidas adotadas visando à implantação de um mercado de bens duráveis e semiduráveis, acompanhado de um desenvolvimento espantoso das técnicas de publicidade”. Nesse processo, a televisão passou a ser a “menina dos olhos” para os marqueteiros de plantão, que começaram a identificar a televisão como um mecanismo de criação de uma “aculturação de massas”, capaz de cumprir sua função de identificação brasileira geográfica e socialmente. Nesse momento, o papel assumido claramente pela televisão buscava ajustar o homem brasileiro ao modelo e ao discurso desenvolvimentista do governo militar.
E para que a imagem desse discurso se fizesse mais forte, nada melhor do que levar a “realidade nacional”, mesmo que “fantasiosa e ilusionista”, às telas brasileiras, e conseqüentemente ao cotidiano televisivo, como forma de caracterizar uma identidade nacional, entretanto sem que essa “identidade” viesse a se colocar contra os planos e a política de desenvolvimento do governo militar. Como afirma a autora, esse trabalho foi assumido, principalmente, pelas telenovelas, que na década de 1970 foi uma das grandes responsáveis pela tentativa de caracterizar a imagem e a identidade do povo brasileiro. Nesse momento, as novelas começaram a oferecer ao brasileiro “desenraizado que perdeu sua identidade cultural, um espelho glamurizado, mais próximo da realidade de seu desejo do que da realidade de sua vida e por isso mesmo funcionou como elemento conformador de uma ‘nova identidade’”.
Hoje a vários projetos de governo referencias para o fortalecimento da identidade nacional, os quais pretendem “compreender a cultura brasileira dentro de suas peculiaridades, notadamente as que decorrem do sincretismo alcançado no Brasil a partir das fontes principais de nossa civilização” (PNC, 1975). A “identidade nacional” também está presente no programa “Cultura Viva” do governo Lula, o qual prevê, através da interação entre os “Pontos de Cultura” previsto pelo programa, trocas de experiências, assim como a definição de identidades. Assim, podemos dar início às discussões sobre a tal identidade nacional e até mesmo sua veracidade ou viabilidade.
Sergio Buarque de Holanda “Raízes do Brasil
Mas gosto mesmo para este debate, e da referência de Sergio Buarque de Holanda em sua obra “Raízes do Brasil”, escrito em 1936, com uma perspectiva sociológica e psicológica e objetivo político, onde o autor tenta, através de nosso passado, ver o nosso futuro. É um livro inovador no que diz respeito à busca da identidade nacional. Num momento onde a psicologia vinha se desenvolvendo muito e a sociologia começa a perder seu caráter altamente “científico”, Sérgio Buarque vai atrás do que poderíamos chamar de essência do homem brasileiro. Num jogo de idas e vindas na nossa história, deixando claro os momentos que ele mais considera, Sérgio Buarque vai construindo um panorama histórico no qual ele inserirá o “homem cordial”, que nada mais é do que fruto de nossa história, que vem da colonização portuguesa, de uma estrutura política, econômica e social completamente instável de famílias patriarcais e escravagistas.
Herança Cultural: A estrutura da sociedade colonial é rural. Isso pode ser visto quando analisamos quem detinha o poder na época colonial: os senhores rurais. Dentro desse contexto, a abolição da escravatura aparece como um grande marco na nossa história.
O Homem Cordial: Para Sérgio Buarque, o Estado não é uma continuidade da família. Dá o exemplo de tal confusão com a história de Sófocles sobre Antígona e seu irmão Creonte, onde havia um confronto entre Estado e família. Houve muita dificuldade na transição para o trabalho industrial no Brasil, onde muitos valores rurais e coloniais persistiram. Para o autor as relações familiares ( da família patriarcal, rural e colonial), são ruins para a formação de homens responsáveis.
Até hoje vemos uma dificuldade entre os homens detentores de posições públicas conseguirem distinguir entre o público e o privado."Falta ordenamento impessoal que caracteriza a vida no Estado burocrático”.
A contribuição brasileira para a civilização será então, o “homem cordial”. Cordialidade esta que não é sinônimo de civilidade de polidez, mas que vem de cordes, coração.
A impossibilidade que o brasileiro tem em se desvincular dos laços familiares a partir do momento que esse se torna um cidadão, gera o “homem cordial”. Esse homem cordial é aquele generoso, de bom trato, que para confiar em alguém precisa conhece-lo primeiro. A intimidade que tal homem tem com os demais chega a ser desrespeitosa, o que possibilita chamar qualquer um pelo primeiro nome, usar o sufixo “inho” para as mais diversas situações e até mesmo, colocar santos de castigo. O rigor é totalmente afrouxado, onde não há distinção entre o público e o privado: todos são amigos em todos os lugares. O Brasil é uma sociedade onde o Estado é apropriado pela família, os homens públicos são formados no círculo doméstico, onde laços sentimentais e familiares são transportados para o ambiente do Estado, é o homem que tem o coração como intermédio de suas relações, ao mesmo tempo em que tem muito medo de ficar sozinho.
Novos Tempos: Há na sociedade brasileira atual, um apego muito forte ao recinto doméstico, uma relutância em aceitar a superindividualidade. Poucos profissionais se limitam a ser apenas homens de sua profissão. Há um grande desejo em alcançar prestígio e dinheiro sem esforço. O bacharelado era muito almejado por representar prestígio na sociedade colonial urbana. Não havia uma real preocupação com a intelectualidade com o sabre, havia um amor pela idéias fixas e genéricas o que justificará a entrada do positivismo e sua grande permanência no Brasil. Autor faz críticas aos positivistas. Para o autor a democracia foi no Brasil “sempre um mal-entendido”.Os grandes movimentos sociais e políticos vinham de cima para baixo, o povo ficou indiferente a tudo. O romantismo acabou se tornando um mundo fora do mundo, incapaz de ver a realidade, o que ajudou na construção de uma realidade falsa, livresca. Muitos traços da nossa intelectualidade ainda revelam uma mentalidade senhorial e conservadora. Fala da importância da alfabetização para o Brasil.
Nossa Revolução: As revoluções da América, não se parecem com revoluções. A revolução brasileira é um processo demorado que vem durando três séculos e a Abolição é um importante marco. As cidades ganharam autonomia em relação ao mundo rural. O café traz mudanças na tradição, como a legitimação da cidade. “A terra de lavoura deixa então de ser o seu pequeno mundo para se tornar unicamente seu meio de vida, sua fonte de renda e riqueza”.O café substitui a cana, mas não deixa espaço para a economia de subsistência. As cidades ganham novo sentido com o café, que acabam solapando a zona rural.
O Brasil é um país pacífico, brando. Julgamos ser bons a obediência dos regulamentos, dos preceitos abstratos. É necessário que façamos uma espécie de revolução para darmos fim aos resquícios de nossa história colonial e começarmos a traçar uma história nossa, diferente e particular.
Para o autor a ausência de partidos políticos atualmente é um sintoma de nossa inadaptação ao regime legitimamente democrático. Sérgio Buarque critica o Brasil que acredita em fórmulas. Fala quais são os principais elementos constituintes de uma democracia. Com a cordialidade, o brasileiro dificilmente chegará nessa “revolução”, que seria a salvação para a sociedade brasileira atual.

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