sábado, 10 de janeiro de 2009

Chega! Mandei um e-mail por que não aguento mais!.

Como diz Paulo Henrique Amorim dá azia ler o PIG. Quero dividir hoje um e-mail que acabei de mandar ao Senhor Gustavo Iosche, articulista da Veja, sobre um artigo publicado na F. de São Paulo, em 9 de janeiro de 2009, com o titulo; “Gaza: hora de golpear o terrorismo”. Segue abaixo;
Senhor Gustavo Iosche,
Em artigo publicado em 9 de janeiro de 2009 intitulado; “Gaza: hora de golpear o terrorismo”, o senhor chama à atenção dos leitores, para omissão da cobertura jornalística aos ataques a Faixa de Gaza. Neste ponto concordo inteiramente com o senhor. Não pelos fatos desinformando e distorcidos, que consta em seu artigo, demonstrando insuficiência histórica, se referindo ao Hamas como genocidas e ao Estado de Israel como vitimas agredidas por uma impressa brasileira atrasada.
Ora, que mundo o senhor está? Talvez ficaste muito tempo em Yale se esquecendo de olhar para além dos muros da Universidade. Mas nunca é tarde para ser uma pessoa melhor com visões além do alcance senhor Gustavo, comece conhecendo a história dos dois lados. E para não somente discordar, venho corroborar com a informação. Pedi alguns bons amigos, para que ajudasse um articulista carente de teor histórico.
Para começar, vamos entender o “Estado Bandido”. A história do Estado de Israel não é propriamente uma história. Poderíamos chamá-la de “folha corrida”, tamanha são as agressões e atrocidades cometidas por organizações terroristas e assassinas tanto antes da sua criação, como posteriormente depois de 14 de maio de 1948 quando de sua proclamação. Esse dia, para os palestinos e árabes em geral é conhecido como Al Nabka (A Catástrofe).
Israel meteu-se em pelo menos cinco guerras contra seus vizinhos árabes. De um território originalmente concedido pelas Nações Unidas (em seu maior erro histórico cometido no dia 29 de novembro de 1947), da ordem de 52% (os palestinos ficariam com 48%), hoje Israel detém 92% de toda a Palestina histórica. Sim, caro Gustavo, é isso mesmo que você leu. Um povo, que milenarmente ocupa aquela terra, que são os palestinos, tem as suas propriedades expropriadas em mais da metade e com o passar dos anos. Com uma política sistemática de limpeza étnica, de expulsões, matanças, assassinatos, demolições de residências, os palestinos foram perdendo cada vez mais suas terras e hoje possuem meros 8%, na Faixa de Gaza – a região mais densamente povoada da terra – e na Cisjordânia, onde ainda moram 400 mil israelenses em 250 assentamentos.
Israel não respeita e nem nunca respeitou qualquer resolução da ONU que lhe seja contrária. As mais importantes foram as tomadas por ocasião da Guerra dos Seis Dias de junho de 1967. A ONU, por unanimidade – uma das poucas vezes que os EUA não vetaram uma resolução contra Israel – decide que Israel deveria devolver aos palestinos as suas terras tomadas nessa guerra. Mas, que nada. Isso nunca aconteceu. E quem tem a coragem e a força política – e militar – para impor algum tipo de sanção a Israel, tendo por trás os Estados Unidos?
O termo “Estado bandido” é de uso comum entre estudiosos da política internacional. Surge cunhado por gente do Departamento de Estado americano, para tentar caracterizar aqueles estados párias, que ficam à margem das leis internacionais, estados delinqüentes e em alguns casos, como eles mesmos diziam, estados que patrocinam e apóiam o terrorismo internacional. Ora, como caracterizar o que Israel vem fazendo hoje contra o povo palestino na Faixa de Gaza? Porque esse Estado não respeita e não acata as resoluções da ONU e as leis internacionais? Não seria então exatamente esse um “Estado bandido”, pela definição estadunidense? Não tenho dúvidas que sim.
Por que Israel se sente no direito de matar indiscriminadamente os palestinos? Isso tem alguma origem divina? Que o deus de suas escrituras sagradas lhes tenha dito que eles seriam um “povo eleito” e predestinado, ainda assim isso não lhes daria o direito “divino” de matar ninguém. Que o seu deus lhes tenha prometido uma terra, ainda que eu não creia em nenhum deus, até entendo que os deuses devam cuidar dos povos que neles acreditam. Mas prometer uma terra para um povo com outro povo morando nessa terra assim também é demais. Como tenho insistido, a questão não é e nunca foi religiosa, como querem – erroneamente – insistir alguns analistas. O problema é e seguirá sendo político. Trata-se de um projeto colonial, de luta pela terra, em uma das regiões mais estratégicas – se não a mais estratégica – de todo o planeta. E tem por detrás disso a maior potência do planeta, que são os EUA, que fornecem praticamente todas as armas ao quarto maior e mais poderoso exército da terra, que é o de Israel.
Análise dos últimos acontecimentos
1. Quem mesmo rompeu a trégua? Muito se diz que quem quebrou a trégua acertada em junho de 2008, mediada pelo Egito, foram os palestinos do Hamas, no dia 19 de dezembro passado. Essa é uma mentira escandalosa, que é encoberta pelos meios de comunicação de massa. Quem violou a trégua foram os israelenses. E a violaram de duas formas. Por um lado, nunca cumpriram o acertado em junho passado de abrir as fronteiras para o livre trânsito de mercadorias, especialmente remédios e alimentos e impuseram um odioso bloqueio econômico à região de Gaza. Mas, em 4 de novembro, exatamente o dia das eleições presidenciais americanas, na calada da noite, Israel mata um palestino na fronteira com o Egito. O Hamas dispara um foguete contra uma cidade israelense próxima e, no revide, a aviação israelense assassina cinco dirigentes do Hamas. E isso tudo ocorrendo a cinco dias da realização de uma nova rodada de negociações e discussões sobre a paz possível, onde o Hamas sinalizava que poderia vir a reconhecer o Estado de Israel. É bom que nunca esqueçamos que na Cisjordânia, os palestinos da resistência não jogam mísseis em cidades israelenses próximas nem nos assentamentos judaicos que ficam incrustados nessa região e, ainda assim, em 2008, Israel matou 50 palestinos nessa região.
2. Quem é vítima, Israel ou os Palestinos? Tenho lido muita coisa sobre o “direito” de Israel se defender. Usam comparações absurdas, falam em até “20 mil foguetes” que o Hamas possuiria. Bobagem completa tanto em número como no potencial de letalidade dos tais mísseis. Esses mísseis fabricados pelo Hamas são como rojões caseiros, fogos “Caramuru”, muito conhecidos no Brasil. Nenhuma eficácia e o máximo que conseguem é disparar sirenes de alarme nas cidades vizinhas à Gaza, nada mais. A resposta é completamente assimétrica e desproporcional. Estranha-nos que os tais analistas e mesmo os correspondentes dos jornalões, que pedem que os palestinos deixem de resistir. Que querem eles com isso? Que um povo perca a sua identidade? Que deixe de lutar? Que desapareça completamente? Isso nunca ocorrerá. Fazem com isso o jogo dos agressores, mostrando Israel como vítima e os palestinos que morrem às centenas como seus algozes. Uma completa inversão dos fatos e da realidade. As vítimas é que são as culpadas. E nisso, os EUA não estão sozinhos, mas contam com o beneplácito de quase todos os governos europeus. Honrosa exceção esta o Brasil, cuja chancelaria emitiu em 12 dias de bombardeios, quatro notas pedindo um imediato cessar-fogo e criticando, diplomaticamente claro, as agressões israelenses. Como diz o jornalista Pimenta (HP), há duas formas de criminosos agirem. O de Israel e seu modus operandi é assim: a) fazem sempre se passar por vítimas, lembrando sempre que lhes for conveniente, o holocausto judeu e que foram vitimas do nazismo e b) fazendo uma provocação para que algum grupo palestino da resistência os ataque. Isso não cola mais. Não enganam mais as consciências de milhões em todo o mundo, que hoje, mais do que nunca, estão com os palestinos.
3. Quais são os alvos em Gaza? Israel iniciou os ataques dizendo que destruiria o Hamas completamente, um grupo político e religioso que venceu democraticamente as eleições de janeiro de 2006, talvez as mais democráticas e limpas já realizadas num país árabe que se tem notícia. E quem diz isso é a entidade presidida por Jimmy Carter, ex-presidente americano (1975-1979). Depois disso, passou a dizer que agora quer apenas enfraquecer o grupo e desarmá-lo. Vai sair derrotado dessa aventura, como foi no Líbano em julho de 2006, quando tentou “destruir” o Hezbolláh. Vai acabar fortalecendo o Hamas. Mas, o maior problema em tudo isso são os métodos adotados por Israel para cumprir “seus objetivos estratégicos”. Atacam indiscriminadamente todos os locais que os seus órgãos de “inteligência” (?) afirmam ser depósitos de mísseis. Bombardeiam 1,5 milhão de palestinos que vivem enjaulados. Casas de famílias, mesquitas, escolas e até hospitais! Dizem que os dirigentes do Hamas usam as pessoas como “escudos humanos”. Isso não é verdade. Mas, ainda que fosse verdade, seria ética e moralmente aceitável matar crianças, como as da escola da ONU, mesmo que lá estivessem escondidos os fogos “Caramuru” do Hamas?
4. Qual é a questão central hoje? Os que defendem os ataques aos palestinos argumentam que “Israel tem o direito de existir”. E é verdade. Mas isso não esta sendo questionado por ninguém. Até o Hamas sabe que precisará aceitar isso. A questão central é que o Estado da Palestina precisa existir, tem o direito legitimo de existir e precisa ser instalado e deve conviver harmonicamente ao lado de Israel. Essa é a questão central. E essa é uma decisão tomada há 61 anos e não se cumpre!
5. O que é a chamada “assimetria” nos ataques? Muito tem se falado sobre a desproporção e a assimetria nos combates. De um lado o quarto maior e mais poderoso exército entre os 200 países membros da ONU. De outro, guerrilheiros palestinos, mal armados e treinados, usando táticas de guerra urbana e de guerrilha, com seus mísseis caseiros. Israel usa o armamento mais moderno e poderoso, fornecido, claro, pelos Estados Unidos. Todas as bombas que são despejadas nas cabeças dos palestinos vêm escritas “made in USA”. E ainda querem que o ódio aos americanos não se dissimule entre os palestinos. Mas, usam bombas de outros tipos. A imprensa registra uso de balas de tungstênio, de urânio empobrecido, termobáricas, de fragmentação (proibidas pela ONU e suas convenções internacionais) e até bombas de fósforo branco. Matam com requinte especial. Como diz meu amigo, o combativo jornalista George Bordokan em seu blog: “que venham agora as câmaras de gás e os fornos crematórios”. É o que falta para a “solução final” de extermínio do povo palestino. Nunca nos esqueçamos inclusive que Israel, que proclama que o Irã vai produzir a sua bomba atômica e quer que o mundo ataque esse país, é o único pais do Oriente Médio a possuir a bomba atômica. Alguns estudiosos afirmam que o país possui em torno de 40 ogivas nucleares prontas para serem disparadas.
6. Por que Obama age como uma “esfinge”? Obama tem enviado sinais para a imprensa de que “os Estados Unidos só podem ter um presidente de cada vez” e até 20 de janeiro, o presidente é George Bush. Estamos em completo desacordo com isso. O período que ele vive é chamado de transição. O governo agonizante de Bush, o mais impopular da história, segue cometendo as maiores atrocidades e erros na sua diplomacia. Mas Obama se quisesse, poderia interferir nisso, dar uma linha, fazer um pronunciamento, ou mesmo um pedido para o presidente que finda seu mandato. Mas optou em não fazê-lo. Comete um grave erro. Vai queimando a sua popularidade ao omitir-se nesse momento crucial, onde a omissão soa como completa conivência com o massacre em curso. E é uma mentira que Obama não se pronuncia sobre a política externa americana. Quando dos atentados na Índia na cidade de Mumbai no final de 2008, que mataram dezenas de pessoas, ele fez um pronunciamento condenando os ataques. Agora mesmo, em duas reuniões de emergência do Conselho de Segurança da ONU, os EUA vetaram uma resolução pedindo um imediato cessar fogo. Obama poderia ter interferido nisso e pedido que a resolução fosse aprovada. Preferiu não fazê-lo.
Abraços
Sumayra Oliveira e amigos.
Para não esquecermos
Algumas regras da mídia
*Doze regras de redação da mídia internacional quando o assunto é o Oriente Médio*
1. No Oriente Médio são sempre os árabes que atacam primeiro e sempre Israel é que se defende. Esta defesa chama-se represália.
2. Os árabes, palestinos ou libaneses não têm o direito de matar civis. Isso se chama "terrorismo".
3. Israel tem o direito de matar civis. Isso se chama "legítima defesa".
4. Quando Israel mata civis em massa, as potências ocidentais pedem que seja mais comedida. Isso se chama "Reação da Comunidade Internacional".
5. Os palestinos e os libaneses não têm o direito de capturar soldados de Israel dentro de instalações militares com sentinelas e postos de combate. Isto se chama "Seqüestro de pessoas indefesas."
6. Israel tem o direito de seqüestrar a qualquer hora e em qualquer lugar quantos palestinos e libaneses desejar. Atualmente são mais de 10 mil, 300 dos quais são crianças e mil são mulheres. Não é necessária qualquer prova de culpabilidade. Israel tem o direito de manter seqüestrados presos indefinidamente, mesmo que sejam autoridades eleitas democraticamente pelos palestinos. Isto se chama "Prisão de terroristas".
7. Quando se menciona a palavra "Hezbollah", é obrigatória a mesma frase conter a expressão "apoiado e financiado pela Síria e pelo Irã".
8. Quando se menciona "Israel", é proibida qualquer menção à expressão "apoiada e financiada pelos EUA". Isto pode dar a impressão de que o conflito é desigual e que Israel não está em perigo de existência..
9. Quando se referir a Israel, são proibidas as expressões "Territórios ocupados", "Resoluções da ONU", "Violações dos Direitos Humanos" ou "Convenção de Genebra".
10. Tanto os palestinos quanto os libaneses são sempre "covardes", que se escondem entre a população civil, que "não os quer". Se eles dormem em suas casas, com suas famílias, a isso se dá o nome de "Covardia". Israel tem o direito de aniquilar com bombas e mísseis os bairros onde eles estão dormindo. Isso se chama "Ação Cirúrgica de Alta Precisão".
11. Os israelenses falam melhor o inglês, o francês, o espanhol e o português que os árabes. Por isso eles e os que os apóiam devem ser mais entrevistados e ter mais oportunidades do que os árabes para explicar as presentes "Regras de Redação" (de 1 a 10) ao grande público. Isso se chama "Neutralidade jornalística".
12. Todas as pessoas que não estão de acordo com as Regras de Redação acima expostas são "Terroristas anti-semitas de Alta Periculosidade".
* Texto da jornalista inglesa Mona Baker, do The Translator

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