domingo, 10 de janeiro de 2010

No quarto escuro com Mafalda – Parte 2.

Mafalda passou o fim de tarde e o início da noite no quarto escuro chorando, como uma criança, que não ganhou o que tanto queria.

Sabe que ela queria?
As segundas, as terças, as quartas, as quintas, o sábado e o domingo. Não necessariamente tudo de uma vez só, pelo o que entendi!
E porque ela só tinha, as quartas depois do futebol, a sextas depois das festas e o domingo depois das dez. (Bem sessão coruja, né?!)
E ai ela me perguntou, limpando os olhos inchados:

- Sou feia?
- Claro que não Mafalda!
- Sou chata, fedida ou nojenta?
- Não, Mafalda!
- Então porque não tenho inteiro?
- Talvez porque a maldade vem assim, pela metade, em contra-gotas semanais.

Continuou com seu mar de água salgada, que escorria por seus olhos. Ai perguntei, por que estava assim, tão emaranhada em lágrimas e ela respondeu;

-Porque dói.
-O que dói Mafalda?
- Dói gostar inteiro.

Bom o que fazer? Deixei ela lá, na escuridão de seu quarto e vim aqui, escrever suas histórias, que muito me impressiona. Afinal é a Mafalda, mulher que todas querem ser! Quem diria que também chora igual uma criança!
Mas antes de ir disse a ela, alguma coisa que tinham lido, acho de Shakespeare:

-Chora Mafalda, Chora, porque “Chorar é diminuir a profundidade da dor” e sua dor é sinal de que sua enfermidade está saindo do seu corpo e da sua alma e logo logo, estará curada .

E ela me mostrou um papel com as mãos trêmulas, e perguntou se aquele texto do retardado do Arnaldo Jabor, tinha sentido.

- Bom Mafalda, sentido só a ciência, mas deixe me ler:

“Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.

O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.

Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.

Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.

Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.

Você ama aquela petulante... Você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam. Então?

Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.

Você ama aquele cafajeste.... Ele não tem amenor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.

Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga..... Por que você ama este cara?

Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.

É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucurapor computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.

Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?

Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados. Não funciona assim.

Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.

Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!

Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa.


- Bem se tem sentido, não sei Mafalda. Mas sei que está na hora de dormir e esquecer a maldade lá de fora, aqui dentro do seu quarto escuro, ninguém há de machuca - lá mais.

Nenhum comentário:

Postar um comentário