domingo, 20 de dezembro de 2009

HERÓI MODERNO, HERÓI ORGÂNICO*


O trabalho aqui apresentado trata-se de uma discussão sobre a figura do herói e a solidariedade orgânica, expressa na obra: “Divisão Social do trabalho (1978)”. O tema proposto faz parte de um exercício, do imaginar as infindáveis possibilidades sociológicas de investigação e interpretação da sociedade e seus intermináveis desenhos. Pois bem, neste momento faz necessário dois esclarecimentos; a conceituação da figura do herói e um apanhando sobre a solidariedade orgânica na citada obra de Ëmile Durkheim.

Comecemos pelo último, pontuada pela diferença entre os indivíduos, sendo somente possível se cada indivíduo tiver uma esfera de ação que lhe é própria, onde persiste autonomia e onde a unidade do organismo é tanto maior quanto mais marcada é a individualização das partes, assim, individualidade do todo cresce ao mesmo tempo em que a das partes; a sociedade torna-se mais capaz de mover-se como conjunto, ao mesmo tempo em que cada um de seus elementos tem movimentos próprios.

Ora, é aquela solidariedade típica das sociedades capitalistas, onde pela acelerada divisão do trabalho social, os indivíduos se tornam interdependentes. Essa interdependência anula costumes, tradições e relações sociais estreitas, mas afirma códigos e regras de conduta que estabelecem direitos e deveres e se expressam em normas jurídicas: isto é, o dogmatismo positivado no cotidiano, ou seja, fato social consumado. Nas sociedades capitalistas, a consciência coletiva perde coesão social. Assim, ao mesmo tempo em que os indivíduos são mutuamente dependentes, cada qual se especializa numa atividade.

De modo qualificado, a solidariedade orgânica é a que predomina nas sociedades "modernas" ou "complexas" do ponto de vista da maior diferenciação individual e social. Durkheim concebe as sociedades complexas como grandes organismos vivos, onde os órgãos são diferentes entre si (que neste caso corresponde à divisão do trabalho), mas todos dependem um do outro para o bom funcionamento do ser vivo. Afinal a crescente divisão social do trabalho é o que faz aumentar também o grau de interdependência entre os indivíduos.



HERÓI MODERNO, HERÓI ORGÂNICO



Voltemos há outra necessidade e primeiro esclarecimento imperativo. Segundo artigo publicado por Nelson Filho (2006) a definição de herói não é tarefa fácil e para fazê-lo, é preciso considerar a época, a sociedade, a região geográfica e levar em conta aspectos políticos, econômicos, sociais e culturais. Partindo desta delimitação, é salutar definir um aspecto temporal - o herói que cogitarei compõe o cenário atual - este indivíduo que simboliza a solidariedade orgânica de Durkheim, tão porque é o nosso objetivo, mas também venho refletindo nestes indivíduos “heróis”, conectado com uma dificuldade moderna de ser coletivo demonstrado pela diminuição de espaços ocupados pelos movimentos sociais clássicos.

Como remete à estreita identidade estabelecida por Touraine entre a cultura do século XIX e os valores da sociedade industrial, pois, acompanhando Marx e a leitura marxista, define a sociedade civil como "o espaço social da produção da vida social através do trabalho e da criação por este dos valores culturais" (Touraine, 1992a, p. 134). Com a mudança para uma sociedade pós-industrial da informação, ao contrário, “o poder consiste em inventar produtos e padrões com os quais a experiência individual e coletiva pode ser modelada" (Touraine, 1983a, p. 229). Nessa sociedade em estado de permanente mudança não sobra nada de consensual, coletivo ou institucional. O individualismo e a subjetividade reinam soberanos.



A sociedade não tem mais uma natureza, não se baseia mais em qualquer valor ou invariante; é apenas o que faz por si mesma, para melhor ou para pior. É irrelevante ou supérfluo apelar para princípios morais, lei natural, direitos humanos ou valores religiosos a fim de organizar a vida social. A sociedade não é nada senão o produto mutável, instável, frouxamente coerente de relações sociais, inovações culturais e processos políticos. (Touraine, 1983a, p. 220)



Nesse vazio criado por sua concepção do colapso da sociedade civil é que se legitima a teoria anti-societária, de Touraine, e nasce a sua teoria dos novos movimentos sociais.

Na fase industrial do capitalismo, a orientação cultural dominante era mais coletiva na forma, enfatizando o materialismo, o crescimento, o progresso e a organização. A passagem para uma sociedade da informação deu origem a uma lógica cultural de relações subjetivas, limites, autenticidade e individualidade. Isto é, o indivíduo procura manter ou recuperar o controle sobre sua própria orientação cultural e seu modo de agir lutando contra as grandes organizações que possuem a capacidade de produzir, difundir e impor linguagens e informações. [Essas organizações] produzem representações da natureza, da realidade social e histórica, do indivíduo, de certas personalidades culturais ou do próprio corpo. (Touraine, 1985, p. 280; cf. Touraine, 1983b, p. 36). No meu entendimento através da observação de grupos políticos e sociais, criando a figura do herói, onde o coletivo não é mais necessário, pois o individuo sobressai a organização.

Touraine enxerga nessa lógica cultural contemporânea uma contradição disseminada e fundamental entre as orientações daqueles que controlam as indústrias da informação e daqueles que são dominados por elas. "Os dirigentes das grandes indústrias culturais", escreve Touraine (1992a, p. 141), "falam em nome do individualismo". Mas, ao mesmo tempo em que "falam de criatividade, liberação e liberdade de escolha". Por oposição, aqueles que são dominados por essa nova classe dirigente estão comprometidos, em virtude de sua posição estrutural, com o individualismo de um modo mais radical. "No campo oposto, também se fala em individualismo, liberdade e movimento, mas de modo mais defensivo e mais “utópico”, pois, neste caso, não se fala apenas em nome do indivíduo, mas de sua capacidade e de seu desejo de defender a própria individualidade e subjetividade." (Touraine, 1992a, p. 141).

Tourraine e seus colaboradores, nos estudos etnográficos sobre os movimentos sociais, visam demonstrar que a ideologia de cada protesto específico expressa, à sua maneira, a subjetividade revolucionária de uma nova classe revolucionária, as afirmações sobre individualidade, subjetividade e libertação do controle dão muito mais a impressão de ser um verniz abstrato de intenção cultural.

Nos movimentos sociais atuais, segundo Touraine seus objetivos são expostos como autônomos e independentes em relação à dominação em si, não como vinculados aos discursos morais da obrigação coletiva. Quando Touraine (1984, p. 38) conclui que "os novos movimentos sociais nos países industrializados opõem a autonomia ao poder, não mais a razão à tradição", deixa claro que sua análise dos movimentos contemporâneos rompeu com uma sólida referência à especificidade das sociedades ocidentais. Os movimentos são apresentados como meros protestos institucionalmente específicos contra a sociedade capitalista tardia, inspirados numa cultura tão subjetiva e individualista que suas várias expressões se tornam apenas meios transparentes através dos quais atores individuais e grupos de interesse se manifestam.

E assim, a sociedade civil é que resulta dos movimentos sociais, não o contrário: Nessas sociedades altamente industrializadas, os conflitos e debates atingem uma determinada unidade de modo autônomo, sem a interferência de um princípio unificador externo [...] A ação de uma tecnocracia dirigente [...] é criar uma tentativa de impor aos cidadãos um determinado tipo de vida social. Uma sociedade mais civil, por outro lado, uma sociedade que seja uma extensão da democracia, é inevitavelmente produto de lutas sociais e processos políticos. (Touraine, 1984, p. 40).

Se os movimentos sociais são bem-sucedidos, Touraine (1983a, p. 229) alega então que o resultado é a formação de uma nova sociedade civil pós-clássica: "Essas lutas podem ampliar a área da atividade política ou criar [...] uma nova sociedade civil que emerge do próprio vácuo do espaço público da sociedade pós-industrial.” Quando Touraine alega que os sociólogos contemporâneos devem "procurar compreender as condições de existência, autonomia e desenvolvimento da sociedade civil", identifica essas condições com a busca do entendimento das "relações sociais, conflitos e processos políticos que tecem a trama da sociedade civil" (idem, pp. 233-234).


CONCLUSÃO


Na base do programa revolucionário de Touraine (1983b, pp. 140-144) encontra-se o argumento de que, com a emergência da sociedade industrial, a combinação histórica entre democracia, movimentos sociais e revoluções chegou ao fim. Particularmente no século XX, movimentos sociais e democracia "não são apenas diferentes como freqüentemente opostos" (idem, p. 144). Mais do que a criação de uma sociedade política justa ou a abolição de todas as formas de dominação e exploração, o principal objetivo da democracia deve ser permitir que indivíduos, grupos e coletividades se tornem sujeitos livres, produtores de sua história, capazes de reunir em sua ação o universalismo da razão e as particularidades da identidade pessoal e coletiva. (Touraine, 1994, p. 263)

Para Touraine, só existe movimento social quando a ação coletiva é dotada de objetivos sociais, quer dizer, reconhece a existência de valores e interesses sociais gerais e, em conseqüência, não reduz a vida política a um confronto entre campos ou classes, ainda que organize e acirre conflitos. Somente nas sociedades democráticas é que os movimentos sociais se formam sozinhos, pois a livre escolha política obriga cada ator social a lutar simultaneamente pelo bem comum e pela defesa de interesses particulares. Por essa razão, os movimentos sociais mais expressivos recorreram a temas universalistas: liberdade, igualdade, direitos do homem, justiça, solidariedade, temas que estabelecem um nexo direto entre o ator social e o programa político. (Touraine, 1994, p. 88)

Finalmente, estes temas universais produzem, hoje, nos movimentos sociais uma super-estimação em indivíduos como interdependentes do coletivo, mas sem pontos de rede que se cruzam - uma interdependência que valoriza o indivíduo e esse por vez crê que faz sua “parte”, na luta por justiça social isolado do coletivo, onde com o avanço da internet, os movimentos sociais são muitas das vezes redes virtuais e o coletivo, se polariza, nos cabos cibernéticos, forjando-se heróis que desprezam o coletivo e a luta de classe, surgindo-o na sociedade com uma capa de poder onde está escrito “vou salvar o mundo”, mas logo este se frustra, e muda o slogan para: a luta social não empreende conquistas.


* Sumayra de Oliveira


REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BUONICORE, Augusto César. Marxismo, História e Revolução Brasileira: Encontros e Desencontros. São Paulo: Anita Garibaldi, 2009.


DURKHEIM, Emile. Divisão Social do Trabalho. São Paulo: Nova Cultura, 1978.



FILHO, Nelson Nascimento. O homem comum e a percepção do herói na sociedade contemporânea. Inrevista: ano 1, nª 2, 2 Ed. 2006.



GRAMSCI, Antonio. Gramsci – Poder, Política e Partido. São Paulo: Expressão Popular, editora, 2005.


http://74.125.155.132/scholar?q=cache:wqYMEjTdYNoJ:scholar.google.com/+perda+de+for%C3%A7a+dos+movimentos+sociais&hl=pt-BR&as_sdt=2000 ‹Acesso em 3 de set de 2008›



TOURAINE, A. (1983a), "Triumph or downfall of civil society?". Humanities inReview, 1: 218-234


__________. (1983b), Anti-nuclear protest: the opposition to nuclear energy in France. Cambridge, Cambridge University Press



__________. (1992a), "Beyond social movements". Theory, Culture, and Society, 9: 125-145



__________. (1992b), Critique de la modernité. Paris, Fayad.



__________. (1994), Qu'est-ce que la democratie? Paris, Fayad.

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