quarta-feira, 16 de março de 2011

A Cultura e os Valores Humanos*

A cultura como sabemos não se manifesta apenas nas produções materiais. As formas de comportamento, os usos e os costumes, os sistemas de valores, as formas de expressão, as normas políticas, religiosas e morais, a concepção de mundo e de morte, o conjunto dos saberes organizados nas ciências, a organização social constituem a cultura. É na capacidade de o ser humano se adaptar ao meio e de transmitir à gerações seguintes as suas conquistas, é na sua capacidade de aprender que reside a linha que distingue o ser humano do animal.

Edgar Morin diz que Cultura não é um mero suplemento de que usufruem as sociedades humanas por contraste com as sociedades animais. É ela que institui as regras - normas que organizam a sociedade e governam os comportamentos dos indivíduos; constitui o capital coletivo dos conhecimentos adquiridos, dos saberes práticos aprendidos, das experiências vividas, da memória histórico-mítica, da própria identidade de uma sociedade.

Assim, cultura é um conjunto de formas de comportamento adquiridas por um grupo, transmitidas através da educação e interiorizadas ao longo da vida. Logo podemos afirmar que não existe homem sem cultura, pois a cultura engloba tudo aquilo que movimenta sua consciência real: crenças, valores, rituais, regras; e é ela que molda o Homem. Assim o homem só consegue desenvolver-se por meio da cultura. Então concluímos que a Cultura não é senão a realização dos valores, afirmamos que toda a cultura é os valores humanos em praticas.

Os seus principais elementos são: as crenças (religião, ideais políticos, etc.); os valores (educação, respeito, etc.); normas (regras) e tabus. O processo de aculturação (transformação cultural por meio de influências de outras culturas) permite-nos evoluir na mudança da nossa cultura. Recebemos informações de culturas diferentes, um dos fatores preponderante nos tempos atuais desde processo é a comunicação unipolar que devido á facilidade de comunicação (televisão, Internet, rádio…).

A cultura varia de sociedade para sociedade. Não temos todos os mesmos ideais, as mesmas crenças, valores e padrões de comportamento. As várias e diferentes culturas permitem-nos ter uma grande diversidade cultural. Assim somos relativistas culturais, contrapondo o etnocentrismo que é a tendência para sobrevalorizar uma dada cultura, considerando os seus padrões culturais como medida daquilo que é desejável e estimável para todos, onde pode-se conduzir facilmente ao racismo, á xenofobia e ao genocídio. Encontra-se na maioria dos indivíduos quer estes mostrem ou não, e é resultado do processo de enculturação. É considerado como um fator de ajustamento e de integração do individuo, por reforçar a sua identificação com o grupo do qual faz parte, com as formas de conduta aprovadas e consideradas como boas por esse mesmo grupo.

E o relativismo cultural é a atitude de respeito pelas outras culturas, aceitando cada forma própria de entender e relacionar-se com o mundo. Defende que os padrões de comportamento e os sistemas de valores dos povos com os quais se entra em contacto sejam julgados e avaliados sem referência a padrões absolutos; defende a necessidade de tolerância pelas diferenças e de respeito pelas outras culturas; critica a tendência para julgar como inferior, irracional e bizarro tudo o que é diferente dos próprios costumes.

Mesmo assim indicamos limites ao relativismo cultural. o primeiro é que para o relativismo tudo é cultura, desde que pertença a um determinado povo, e apareça como uma expressão da cultura dele. O segundo limite é que tudo se equivale, porque se faz parte da tradição de um povo, então é uma boa maneira de defendê-la. O relativismo cultural leva ao relativismo moral que por sua vez leva ao relativismo político, porque não se pode agir contra algo de uma determinada cultura, já que faz parte da cultura deles. O terceiro limite é que o relativismo cultural não leva em conta que em qualquer sociedade, em qualquer momento da história, existem contradições dentro dessa sociedade dentro dessa cultura.

O valor supremo que pode permitir ultrapassar os limites do relativismo é a dignidade humana. Devemos respeitar todas as culturas, mas não podemos aceitar práticas culturais que não respeitem a dignidade humana, porque primeiro somos seres humanos e só depois é que somos europeus, asiáticos, brancos, negros, cristãos, judeus. Assim a hiper valorização dos valores humanos, que é cultura propriamente dita, é o indicativo de exercício que compreende a diversidade cultural e é a saída para um mundo que caminha, com o avanço das repressões psíquicas a partir de um comportamento padronizado midiático, para o respeito às diferenças, para construção da paz e de uma sociedade mais justa.

*Sumayra Oliveira



REFERÊNCIAS

BERGER, Peter Berger. Perspectivas Sociológicas. Petrópolis:Vozes, 1977.

BOURDIEU, Pierre. Meditações Pascalianas. São Paulo: Bertrand Brasil, 2001.

BRYM, Robert J. et alli. Sociologia: sua bússola para um novo mundo. São Paulo: Thompson, 2006.

ELIAS, Nobert. A Civilização como Transformação do Comportamento Humano. O processo civilizador: uma história dos costumes. V. 1. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1994. p. 65-202.

FALCON, Francisco José Calazans. “Tempos Modernos: a cultura humanista”

In:_________ e RODRIGUES, Antônio Edmilson M. Tempos modernos: ensaios de história cultural. Rio de Janeiro: Civ. Brasileira, 2000. p. 21-48.

MORIN, Edgar. Sociologia. Tradução Maria Gabriela de Bragança. Portugal: Publicações Europa-América, 1984.

______. et al. O Problema Epistemológico da Complexidade. Lisboa: Publicações Europa-América, 1983.

______. Introdução ao Pensamento complexo. Lisboa: Instituto Piaget, 1991.


_____. A cabeça bem feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.

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