terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Interpretação da obra: “Os Estabelecidos e os Outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade”.

Obra de Nobert Elias, usada em minha Monografia sobre a Vila São Cristóvão.
Esta pesquisa tem como suporte metodológico a obra de Nobert Elias em “Os Estabelecidos e os Outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade”, onde o autor apresenta uma oportunidade de encontrar num estudo focado em uma pequena comunidade reflexões metodológicas e teóricas para a pesquisa em ciências sociais. Como o título assinala, trata-se de um estudo de poder na comunidade de Winston Paiva – Inglaterra. As palavras establishment e established são utilizadas em inglês, para designar grupos e indivíduos que ocupam posições de prestigio e poder, um establishment é um grupo que se auto-percebe e é reconhecido como uma “boa- sociedade”, tendo uma identidade social construída a partir de uma combinação singular de tradição, autoridade e influência: os established fundam seu poder no fato de ser um modelo moral para os outros. Na língua inglesa, o termo que completa a relação é outsiders, os não membros da “boa-sociedade”, os que estão fora dela, sendo um conjunto heterogêneo e difuso de pessoas unidas por laços sociais menos intensos, não constituindo propriamente um grupo social.
Este estudo realizado no final dos anos 50 e início de 60, pelo professor John L. Scotson, interessado em tratar apenas do problema da delinqüência juvenil naquela localidade, passou a ter outras perspectivas com Nobert Elias, que considera que o campo de estudo da sociologia é o das configurações de seres humanos interdependentes – “o conceito de configuração refere a um padrão mutável criado na relação entre indivíduos e sociedade” (Sallas, 2000). As configurações, para Elias, se formam necessariamente pela interdependência dos indivíduos em sociedade e podem ser marcadas por uma figuração de aliados ou de adversários, tendo duas características fundamentais: são modelos didáticos que devem ser interpretados como representações de seres humanos ligados uns aos outros no tempo e no espaço; e servem para romper com as polarizações clássicas dentro da sociologia, que tendem a pensar o indivíduo e a sociedade como formas antagônicas e diferentes.
Assim, na pequena Wiston Parva, criou-se uma determinada figuração marcada pela existência de um grupo mais elevado que o dos moradores do “loteamento” recém chegados, e por isso estigmatizado pelos primeiros – os estabelecidos contra os outsiders. Da figuração falada, Elias identifica um constate universal:
O grupo estabelecido atribua aos seus membros características humanas superiores; excluía todos os membros do outro grupo de contato social não profissional com seus próprios; e o tabu em torno desses contatos era mantido através de meios de controle social como a fofoca elogiosa no caso dos que o observavam, e ameaça de fofocas depreciativas contra dos suspeitos de transgressão (: 20).
Agora mais do que a identificação de um determinado modelo figuracional, este estudo apresenta duas revelações proeminente para as ciências sociais. A primeira é que sempre pensamos “um determinado grupo”, a partir do foco de diferenças - sexo, cor, classe, nação – como alterações estruturais das relações de poder. Dificilmente problematizaríamos questões em que estão colocados os termos da igualdade, ou que o diferencial de poder possa estar associado, como é o caso deste estudo, ao tempo de residência e ao maior ou menor grau de coesão e organização de cada grupo inter-relacionado. E o segundo aspecto é a questão da anomia.
O estudo de Winston Parva colocou para Elias a possibilidade de reflexão sobre a anomia, quando observou que na relação de interdependência entre estabelecidos e outsiders, havia um elemento de constância pela existência de uma “minoria dos melhores” entre os estabelecidos (minoria nômica) e uma “minoria dos piores” entre outsiders (minoria anômica), que marcava o status de superioridade e de inferioridade de amplos os grupos. Contrapondo Durkheim em seu conceito de anomia, onde, segundo Elias, não se pode esperar encontrar explicações para a aquilo que se julga ruim, quando não se é capaz de explicar, ao mesmo tempo, aquilo que se avalia como bom.
Elias com seu modelo figuracional e em sua forma particular de pensar as relações de poder contribui para uma nova visão nos estudos de desenvolvimento de comunidades. Antes de Elias pensávamos o poder como algo estático. O autor, na obra, coloca a necessidade de observar os aspectos figuracionais do poder, que se deve a diferença no grau de organização dos seres humanos. Nisto, o conceito de poder, deixa de ser uma substância para se transformar numa relação entre duas ou mais pessoas; assim, o poder é um atributo destas relações, que se mantêm num equilíbrio instável de forças ocorrendo no interior das figurações em que “os grupos estabelecidos vêem seu poder superior como um sinal de valor humano mais elevado; os grupos outsiders, quando o diferencial de poder é grande e a submissão inelutável, vivenciam afetivamente sua inferioridade de poder como um sinal de inferioridade humana” (: 28). Portanto esta obra foi escolhida por elucidar este estudo qualitativo, esclarecendo as complexidades dos seres humanos e suas interdependências.

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