Mostrando postagens com marcador Artigos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Artigos. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Série: Livros que foram bíblias em minha vida


                     Marcos Alvito Pereira de Souza em “As cores de Acari”, 2001, vivenciou a rotina da comunidade de Acari e registrou, em detalhes, a chamada zona vermelha, expressão usada por policiais na década de 1990, em referência a Acari, considerada pelas autoridades uma favela de alta periculosidade à época. A estrutura do trabalho tem inicio a partir de uma frase ouvida pelo autor em Acari: “a favela é bicho-de-sete-cabeças”, como simplificou um morador, serviu como pano de fundo para o estudo de Marcos Alvito. As sete cabeças seriam; a mídia, a polícia, políticos e autoridades, as organizações não-governamentais, as igrejas, a comunidade e o tráfico, bem como a atuação de cada um deles, com o objetivo de elaborar uma interpretação dos símbolos acarianos.

Alvito mostra a problemática da “ilusão” dos territórios, pois de fato Acari não existe, o que é veracidade neste interior do universo da favela são três diferentes localidades, cada qual com seu nome, demarcação espacial e associação de moradores, que no processo cotidiano são bem distintas e jamais confundidas entre seus residentes, que fazem questão de se distinguir e não circulam de uma favela para outra, tratam como o lado de lá, expondo uma enorme distância, sendo o que distancia é apenas uma rua. O autor retratar um profundo processo de transformação da visão de mundo que estilhaçou as redes de sociabilidade, construindo uma realidade marcada por oposições: o branco e o negro, policiais e bandidos, o Bem e o Mal, e Deus e o Diabo. As cores de Acari, na verdade, nos serve como espelho de tantas outras comunidades brasileiras que sobrevivem à sua complexidade.

Esta obra trata-se de tentar identificar, na favela de Acari, um conjunto de planos organizacionais, que possa ser encontrado, com outras ênfases e com outros arranjos, em diferentes favelas, nesse sentido Alvito pretende avançar na sua teoria sobre a favela carioca em dois níveis: o nível macrosociologico das relações entre favela e instituições supralocais e o nível microsociologico focalizando as microáreas de vizinhanças existentes em cada favela.  As localidades como aborda o autor, é onde se constituem os pontos nodais de interação e há uma rede altamente complexa de diversos tipos de analogia, abolindo a palavra comunidade, por ser uma transposição mecânica dos métodos utilizados no estudo de tribos, e muitas vezes utilizados para determinar um microcosmo isolado e autônomo. Destacando que o objetivo deste trabalho, portanto selecionado a esta pesquisa, é considerar as diversas relações existentes em uma localidade. 

REFERÊNCIA

SILVA, Sumayra de Oliveira. As Vilas e o São Cristóvão.  Monografia apresentada ao Instituto Federal Triângulo Mineiro Campus Uberaba, como requisito para obtenção do título de Graduação de Tecnologia em Desenvolvimento Social. Uberaba, 2009.


terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Começo essa semana a série: Livros que foram bíblias em minha vida!



E como não poderia deixa de ser o primeiro - 
“Os Estabelecidos e os Outsiders”


A obra de Nobert Elias em “Os Estabelecidos e os Outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade”, 2000 - Como o título assinala, trata-se de um estudo de poder em uma comunidade na Inglaterra. As palavras establishment e established são utilizadas em inglês, para designar grupos e indivíduos que ocupam posições de prestigio e poder, tendo uma identidade social construída a partir de uma combinação singular de tradição, autoridade e influência: os established fundam seu poder no fato de ser um modelo moral para os outros. Na língua inglesa, o termo que completa a relação é outsiders, os não membros da “boa-sociedade”, os que estão fora dela, sendo um conjunto heterogêneo e difuso de pessoas unidas por laços sociais menos intensos, não constituindo propriamente um grupo social.

  Este estudo realizado no final dos anos 50 e início de 60, pelo professor John L. Scotson, interessado em tratar apenas do problema da delinqüência juvenil naquela localidade, passou a ter outras perspectivas com Nobert Elias, que considera que o campo de estudo da sociologia é o das configurações de seres humanos interdependentes. As configurações, para Elias, se formam necessariamente pela interdependência dos indivíduos em sociedade e podem ser marcadas por uma figuração de aliados ou de adversários, tendo duas características fundamentais: são modelos didáticos que devem ser interpretados como representações de seres humanos ligados uns aos outros no tempo e no espaço; e servem para romper com as polarizações clássicas dentro da sociologia, que tendem a pensar o indivíduo e a sociedade como formas antagônicas e diferentes.

Assim, na pequena Wiston Parva, criou-se uma determinada figuração marcada pela existência de um grupo mais elevado que o dos moradores do “loteamento” recém chegados, e por isso estigmatizado pelos primeiros – os estabelecidos contra os outsiders. Da figuração falada, Elias identifica um constate universal:

O grupo estabelecido atribua aos seus membros características humanas superiores; excluía todos os membros do outro grupo de contato social não profissional com seus próprios; e o tabu em torno desses contatos era mantido através de meios de controle social como a fofoca elogiosa no caso dos que o observavam, e ameaça de fofocas depreciativas contra dos suspeitos de transgressão (: 20, 2000).

  Agora mais do que a identificação de um determinado modelo figuracional, este estudo apresenta duas revelações proeminente para as ciências sociais. A primeira é que sempre pensamos “um determinado grupo”, a partir do foco de diferenças - sexo, descendência ou classe, – como alterações estruturais das relações de poder. Dificilmente problematizaríamos questões em que estão colocados os termos da igualdade, ou que o diferencial de poder possa estar associado, como é o caso deste estudo, ao tempo de residência e ao maior ou menor grau de coesão e organização de cada grupo inter-relacionado. E o segundo aspecto é a questão da anomia.

O estudo de Winston Parva colocou para Elias a possibilidade de reflexão sobre a anomia, quando observou que na relação de interdependência entre estabelecidos e outsiders, havia um elemento de constância pela existência de uma “minoria dos melhores” entre os estabelecidos (minoria nômica) e uma “minoria dos piores” entre outsiders (minoria anômica), que marcava o status de superioridade e de inferioridade de amplos os grupos. Contrapondo Durkheim, 1897 em seu conceito de anomia, onde, segundo Elias, não se pode esperar encontrar explicações para a aquilo que se julga ruim, quando não se é capaz de explicar, ao mesmo tempo, aquilo que se avalia como bom.

Elias com seu modelo figuracional e em sua forma de pensar as relações de poder contribui para uma nova visão nos estudos de desenvolvimento de comunidades. O autor, na obra, coloca a necessidade de observar os aspectos figuracionais do poder, que se deve a diferença no grau de organização dos seres humanos. Nisto, o conceito de poder, se transforma numa relação entre duas ou mais pessoas; assim, o poder é um atributo destas relações, que se mantêm num equilíbrio instável de forças ocorrendo no interior das figurações em que “os grupos estabelecidos vêem seu poder superior como um sinal de valor humano mais elevado; os grupos outsiders, quando o diferencial de poder é grande e a submissão inelutável, vivenciam afetivamente sua inferioridade de poder como um sinal de inferioridade humana” (: 28).

REFERÊNCIA

SILVA, Sumayra de Oliveira. As Vilas e o São Cristóvão.  Monografia apresentada ao Instituto Federal Triângulo Mineiro Campus Uberaba, como requisito para obtenção do título de Graduação de Tecnologia em Desenvolvimento Social. Uberaba, 2009.



quarta-feira, 16 de março de 2011

A Cultura e os Valores Humanos*

A cultura como sabemos não se manifesta apenas nas produções materiais. As formas de comportamento, os usos e os costumes, os sistemas de valores, as formas de expressão, as normas políticas, religiosas e morais, a concepção de mundo e de morte, o conjunto dos saberes organizados nas ciências, a organização social constituem a cultura. É na capacidade de o ser humano se adaptar ao meio e de transmitir à gerações seguintes as suas conquistas, é na sua capacidade de aprender que reside a linha que distingue o ser humano do animal.

Edgar Morin diz que Cultura não é um mero suplemento de que usufruem as sociedades humanas por contraste com as sociedades animais. É ela que institui as regras - normas que organizam a sociedade e governam os comportamentos dos indivíduos; constitui o capital coletivo dos conhecimentos adquiridos, dos saberes práticos aprendidos, das experiências vividas, da memória histórico-mítica, da própria identidade de uma sociedade.

Assim, cultura é um conjunto de formas de comportamento adquiridas por um grupo, transmitidas através da educação e interiorizadas ao longo da vida. Logo podemos afirmar que não existe homem sem cultura, pois a cultura engloba tudo aquilo que movimenta sua consciência real: crenças, valores, rituais, regras; e é ela que molda o Homem. Assim o homem só consegue desenvolver-se por meio da cultura. Então concluímos que a Cultura não é senão a realização dos valores, afirmamos que toda a cultura é os valores humanos em praticas.

Os seus principais elementos são: as crenças (religião, ideais políticos, etc.); os valores (educação, respeito, etc.); normas (regras) e tabus. O processo de aculturação (transformação cultural por meio de influências de outras culturas) permite-nos evoluir na mudança da nossa cultura. Recebemos informações de culturas diferentes, um dos fatores preponderante nos tempos atuais desde processo é a comunicação unipolar que devido á facilidade de comunicação (televisão, Internet, rádio…).

A cultura varia de sociedade para sociedade. Não temos todos os mesmos ideais, as mesmas crenças, valores e padrões de comportamento. As várias e diferentes culturas permitem-nos ter uma grande diversidade cultural. Assim somos relativistas culturais, contrapondo o etnocentrismo que é a tendência para sobrevalorizar uma dada cultura, considerando os seus padrões culturais como medida daquilo que é desejável e estimável para todos, onde pode-se conduzir facilmente ao racismo, á xenofobia e ao genocídio. Encontra-se na maioria dos indivíduos quer estes mostrem ou não, e é resultado do processo de enculturação. É considerado como um fator de ajustamento e de integração do individuo, por reforçar a sua identificação com o grupo do qual faz parte, com as formas de conduta aprovadas e consideradas como boas por esse mesmo grupo.

E o relativismo cultural é a atitude de respeito pelas outras culturas, aceitando cada forma própria de entender e relacionar-se com o mundo. Defende que os padrões de comportamento e os sistemas de valores dos povos com os quais se entra em contacto sejam julgados e avaliados sem referência a padrões absolutos; defende a necessidade de tolerância pelas diferenças e de respeito pelas outras culturas; critica a tendência para julgar como inferior, irracional e bizarro tudo o que é diferente dos próprios costumes.

Mesmo assim indicamos limites ao relativismo cultural. o primeiro é que para o relativismo tudo é cultura, desde que pertença a um determinado povo, e apareça como uma expressão da cultura dele. O segundo limite é que tudo se equivale, porque se faz parte da tradição de um povo, então é uma boa maneira de defendê-la. O relativismo cultural leva ao relativismo moral que por sua vez leva ao relativismo político, porque não se pode agir contra algo de uma determinada cultura, já que faz parte da cultura deles. O terceiro limite é que o relativismo cultural não leva em conta que em qualquer sociedade, em qualquer momento da história, existem contradições dentro dessa sociedade dentro dessa cultura.

O valor supremo que pode permitir ultrapassar os limites do relativismo é a dignidade humana. Devemos respeitar todas as culturas, mas não podemos aceitar práticas culturais que não respeitem a dignidade humana, porque primeiro somos seres humanos e só depois é que somos europeus, asiáticos, brancos, negros, cristãos, judeus. Assim a hiper valorização dos valores humanos, que é cultura propriamente dita, é o indicativo de exercício que compreende a diversidade cultural e é a saída para um mundo que caminha, com o avanço das repressões psíquicas a partir de um comportamento padronizado midiático, para o respeito às diferenças, para construção da paz e de uma sociedade mais justa.

*Sumayra Oliveira



REFERÊNCIAS

BERGER, Peter Berger. Perspectivas Sociológicas. Petrópolis:Vozes, 1977.

BOURDIEU, Pierre. Meditações Pascalianas. São Paulo: Bertrand Brasil, 2001.

BRYM, Robert J. et alli. Sociologia: sua bússola para um novo mundo. São Paulo: Thompson, 2006.

ELIAS, Nobert. A Civilização como Transformação do Comportamento Humano. O processo civilizador: uma história dos costumes. V. 1. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1994. p. 65-202.

FALCON, Francisco José Calazans. “Tempos Modernos: a cultura humanista”

In:_________ e RODRIGUES, Antônio Edmilson M. Tempos modernos: ensaios de história cultural. Rio de Janeiro: Civ. Brasileira, 2000. p. 21-48.

MORIN, Edgar. Sociologia. Tradução Maria Gabriela de Bragança. Portugal: Publicações Europa-América, 1984.

______. et al. O Problema Epistemológico da Complexidade. Lisboa: Publicações Europa-América, 1983.

______. Introdução ao Pensamento complexo. Lisboa: Instituto Piaget, 1991.


_____. A cabeça bem feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Sylvia Plath

Há conheci hoje. Em um filme belissímo sobre sua história de vida que naturalmente me arrancou algumas lágrimas. Era uma mulher de trinta anos, inteligente, bela e capaz de escrever com fulgor inigualável, suicida-se num certo Inverno londrino, num apartamento gélido. Deixou dois filhos pequenos. Sylvia começou a escrever Diários ainda em criança. Chamava-lhes o seu "Mar de Sargasso". Funcionavam como o repositório das suas experiências e como exercícios de escrita. Eram, também, o lugar privilegiado onde ela registrava as ideias para os poemas.

 É notória a sua ânsia de perfeição, o seu desejo urgente, intenso em relação à poesia. O seu rigor, a exigência em relação a si própria, detectáveis nos seus esforços quando ainda era aluna do Smith College, levaram Ted Hughes (seu grande amor e marido futuramente) a descrevê-la como sendo "alguém excepcional" que podia ser "intensamente artificial" mas que juntava  tudo o que fazia, uma "excitação única". No som e textura das suas linhas existia "uma sensação de profunda inevitabilidade matemática", um fatalismo que contribuiu para a empurrar para o abismo da depressão e da neurose.

Suas escritas mostram seu carácter. Sylvia Plath era extremamente ciúmenta, preferindo ficar londe de seu amado a tolerar suas aventuras, o que levou o um esgotamento, em 1953 e a sua primeira tentativa de suicídio e que ela descreveu em The Bell Jar. Esta edição também inclui os dois diários que Ted Hughes (marido) manteve selados e escondidos de olhares e interpretações até pouco tempo antes da sua morte: o primeiro data de Agosto de 1957, quando Plath se esforçava por se dedicar exclusivamente à sua poesia, e o segundo refere o espaço de tempo entre Setembro de 1959, altura em que ela iniciou sessões privadas de terapia.


Sylvia nasceu em 1932 em Boston, Massachusetts, de ascendência austríaca e alemã. Em 1955 terminou os seus estudos no Smith College e foi para Inglaterra continuar a sua educação. Foi aí que, a 3 de Março de 1956, conheceu, numa festa, um "poeta brilhante", "o único homem suficientemente forte para poder estar à (sua) altura". Para ele escreveu o seu melhor poema até então, chamado Pursuit, que fala de uma pantera que a persegue até à morte e a quem ela lança o seu próprio coração, numa tentativa para a apaziguar. Esta premonição fatal marcou o início de uma relação trágica e tumultuosa para além do suicídio de Sylvia Plath em 1963 e da morte de seu amado Ted Hughes, vitima de um cancer, em 1998.

Os primeiros tempos da relação deles (Sylvia e Ted) foram uma espécie de milagre, o encontro perfeito de duas mentes possuídas de ardor criativo e amoroso. Mudaram-se para Boston, onde passaram um tempo de relativa felicidade, a ensinar e a escrever. Mas Plath tinha já atrás de si, uma longa história de depressão, a que não era estranha a conturbada e muito freudiana relação com o seu poderoso e assustador, que morrera quando ela tinha oito anos e cujo fantasma a perseguiu durante toda a vida. Quanto a Ted Hughes, quee era um homem que arrastava facilmente as mulheres para a sua zona de influêncian e, também, extremamente promíscuo, sexualmente. A sua infidelidade era notória e fazia parte da sua natureza, tanto quanto a morte fazia parte da de Sylvia. Neste contexto, Ted Hughes é frequentemente apontado como o "ogre" que arrastou Sylvia para a sua destruição. Até à morte e apesar da sua enorme importância como Poeta Laureado, ele foi considerado como uma espécie de "Barba Azul", uma reputação que o seu gosto pelas ciências ocultas contribuiu para acentuar.


A escritora Emma Tennant foi uma das suas amantes. Emma pertencia a uma família antiga, rica e extravagante. A sua tia avó era Margot Asquith, mulher de um primeiro-ministro, Colin, o seu irmão mais velho, namorou a princesa Margaret, chegando a oferecer-lhe uma casa nas Caraíbas, a sua sobrinha é a super modelo Stella Tennant e um tio, Stephen Tennant, foi um esteta famoso. Emma foi quem comparou Hughes a "Barba Azul", o mágico falhido que aliciava irremediavelmente as mulheres com modos encantadores que escondiam a sua natureza predadora e o seu gosto pelo sangue.

Lobo, touro, garanhão, leão, são estas as imagens que Tennant associa a Hugues, com quem manteve uma relação intermitente, desde a primavera de 1977 até ao outono de 1979. Em "Burnt Diaries" publicados em Outubro 1998, no mesmo mês em que o seu antigo amante acabaria por morrer, Tennant conta como se deixou seduzir por Hughes: " O seu rosto , semelhante a uma dessas estátuas da Ilha de Páscoa, parece dominar a paisagem circundante: irritação, certeza e orgulho conferem uma espécie de impassibilidade aos seus traços mas, como que a contragosto, um sorriso leve e nervoso, brinca-lhe nos lábios. Será que ele está tão devorado pelo medo como eu, na perspectiva do nosso encontro?" E mais adiante questiona-se se "esta efígie, este deus de beleza masculina, pleno de crueldade" não terá prazer em devorar mulheres (artistas), como ela. Fascinada pela auréola de tragédia e pelo mito que acompanhou sempre a figura de Hughes, Tennant recorda a histeria, o desregramento sexual e emocional que parecia comandar a sua vida e a de quem dele se aproximava. O destino das suas antecessoras não podia ter sido mais cruel: a loira e pálida Sylvia suicidou-se em 1963 e a morena Assia Wevill fez o mesmo, em 1969, levando consigo, para o abismo da morte, a filha de ambos. Segundo certas testemunhas, Hughes teria sido um pai extremoso para Frieda e Nicholas ( os filhos que teve de Sylvia) mas o seu comportamento fora inteiramente diferente em relação a Shura, a filha que teve de Assia. (Uma vez deu vinho a beber à criança para que esta dançasse para os convidados que ele tinha para jantar.)

Depois destas tragédias, Hughes tornou-se um recluso, casou outra vez, em 1970, ( diz-se agora que a mulher, Carol Orchard, também tentou o suicídio) e levantou um muro de silêncio em torno da sua vida privada, só voltando a falar do seu relacionamento com Sylvia na já referida obra, "Birthday Letters" . Estes 88 poemas expõem o choque de titãs que foi a sua vida em comum ("O teu fantasma, inseparável da minha sombra…") e lançam alguma luz sobre a relação neurótica do casal. Mas Hughes nunca se livrou do perfume de escândalo que sempre o rodeou e que ele usava como um poderoso afrodisíaco, como uma espécie de amuleto encantatório. O fato de se interessar pelo xamanismo e pela magia negra, só contribuiu para acentuar a ideia de que ele era um monstro. Sylvia sentiu no corpo, "até aos ossos" a dor excruciante provocada pelas suas infidelidades. Em 1958, quando ainda estavam em Boston, discutiram selvaticamente quando ela o encontrou com uma mulher. No ano seguinte voltaram para Inglaterra e instalaram-se em Devon. Em Julho de 1962, Sylvia soube do omance de Hughes com Assia Wevil.

Separaram-se e ela foi viver para um apartamento em Londres. Durante os poucos meses que lhe restavam para viver escreveu os seus melhores, mais iluminados poemas. E assim numa manhã gelada de Fevereiro de 1963, enquanto os dois filhos pequenos dormiam no quarto ao lado, convenientemente isolados e com leite à cabeceira, ela meteu a cabeça no forno e ligou o gaz. Ninguém apareceu em seu socorro. A salvação teria sido difícil. Sylvia estava há muito condenada pela sua depressão crónica e pelo fatalismo trágico que sempre a acompanhou desde criança. Quem a conheceu diz que ela tinha uma tendência marcante para a "teatralidade", para um exacerbado desnudar de sentimentos que a deixava em carne viva. A sua biógrafa Anne Stevenson fala de uma "dualidade libidinosa", de um "eu" profundo cheio de violência e fúria, que ela reprimia sob a capa de uma aparência cuidada e elegante". Tudo isso ficou documentado: nos poemas, contos ( "Zé Susto e a Bíblia dos Sonhos" ed. port. Relógio d'Água), diários, em The Bell Jar, (" A Campânula de Vidro", Ed. Portuguesa, Relógio d'Água) o romance autobiográfico publicado, sob pseudónimo, em Janeiro do ano da sua morte. O seu primeiro volume de poemas, The Colossus foi publicado em 1961. A sua principal colecção de poemas, Ariel , uma espécie de "crónica" do seu suplício, foi publicada postumamente em 1965. Quanto aos "Collected Poems" receberam um prémio Pulitzer, também a título póstumo, em 1982. O manuscrito de um romance inacabado, intitulado "Double Exposure ", desapareceu em 1970. Mas a beleza e força das suas palavras provocaram tal comoção que ela se tornou uma espécie de santa sacrificada no altar da misóginia masculina, uma mártir abandonada por todos, uma mulher que fora deixada entregue a si mesma, sem que o marido levantasse um dedo para a ajudar. Nos momentos imediatamente a seguir à sua morte, este, como seu executor testamentário, (apesar de separados, eles ainda estavam legalmente casados) destruiu parte dos Diários "para proteger os filhos" e apoderou-se da sua obra.


Será que a grandeza literária é ainda possível? perguntava Susan Sontag num ensaio. Será que, no caso de Sylvia Plath, essa "grandeza" resiste a anos e anos de especulações, análises exaustivas e muitos mexericos que envolveram ( e continuam a envolver) a sua vida e a de todos os que dela se aproximaram. A sua história, intimamente ligada a uma obra genial, aparece-nos como uma verdadeira tragédia isabelina, cheia de golpes de teatro, de violência, de sangue e de muitas lágrimas. A sua morte continua a ser um mistério e conferiu-lhe a glória que tanto procurou em vida. O seu sofrimento foi o motor que transformou a sua arte em algo sublime. Ela foi capaz de descrever, como ninguém, os meandros da solidão, da angústia, da raiva e da fúria. Ao ritmo encantatório das suas palavras, como por magia, os objetos mais banais ganham estatuto de símbolos de uma vida exaltada e exaltante e os atos mais comuns transformam-se em gestos de eloquente heroísmo.

OBRA Os mais belos poemas de Sylvia Plath estão reunidos em uma coletânea chamada Ariel. O livro foi publicado dois anos depois de sua morte e contém textos escritos, em sua maioria, nos meses que antecederam seu suicídio. Nem todas as obras de Plath estão editadas no Brasil. As que podem ser encontradas são: A Redoma de Vidro (The Bell Jar), Pela Água (Crossing the Water), Sylvia Plath - Poemas, Ariel (Ariel), Zé Susto e a Bíblia dos Sonhos (Johnny Panic and The Bible of Dreams) e XXI Poemas.

A partir daqui vou publicar uma coletânea de poesia de Sylvia Plath, que entrou em minha vida por uma fresta das mais antigas dores da  vida.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Artigo Renato Rabelo: O Brasil termina o ano em condição muito favorável

Como na física, num sistema de forças no qual o seu conjunto converge para uma tendência resultante ascendente e de maior potência, assim tem sido o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva neste final de ano. Os vários fatores e circunstancias resultam numa condição muito positiva para o desempenho do seu governo.

A liderança de Lula adquire um papel histórico proeminente, pela dimensão do prestígio alcançado no plano nacional e internacional. O Brasil se destaca como potência proeminente nas Conferências internacionais, nas parcerias estratégicas, na integração regional. O papel de Lula é alçado à personalidade do ano por dois influentes jornais europeus, o espanhol El País e o diário francês Le Monde. Albert Fishlow, renomado professor, escolhe a China como o ¨país do ano¨, mas afirma que o Brasil ¨chegou bem perto¨ deste título.

O governo Lula, apesar da sua dualidade original, conseguiu esboçar e iniciar um novo projeto nacional de desenvolvimento, que permitiu um crescimento mais acelerado desde 2007, superando rapidamente a grande crise capitalista 2008-2009 que atingiu todo o mundo. Mesmo o Banco Central já prevê um crescimento de quase 6% para 2010. A descoberta de petróleo na extensa área do Pré-sal, resultante do nível tecnológico alcançado pela maior estatal brasileira, as conquistas para a realização dos maiores eventos desportivos mundiais no Brasil, denotando o prestigio internacional atingido pelo país, abrem novas perspectivas de volumosos investimentos, além dos ¨PACs¨ e incrementos sociais, podendo sustentar um desenvolvimento acelerado, contínuo e por longo tempo. Para atingir esse elevado nível de desenvolvimento temos insistido na necessidade de redirecionar a política macroeconômica no sentido expansivo, permitindo taxas de investimento imediatas de 21% do PIB, podendo alcançar 28% ou mais.

A tendência é que o nível de emprego e renda se eleve, o salário mínimo mantenha ganhos reais sucessivamente e os planos de construção de milhões de moradias populares se concretizem. Apesar de passos importantes, ainda os desafios sociais mais significativos estão na saúde e educação, que requerem maiores investimentos e maior qualificação universal. E para uma mais justa distribuição de renda é impostergável uma reforma tributaria progressiva, que onere as altas rendas e desonere os produtos do consumo básico e de massa.

No terreno político a marca principal são os êxitos do governo e a ofensiva em todos os planos políticos liderada por Lula. As sucessivas pesquisas de opinião demonstram essa afirmativa. A oposição está desarvorada, sem discurso, sem projeto alternativo, sem encontrar uma forma unitária de candidatura presidencial. A oposição se vê impelida, diante do prestigio do governo atual, a afirmar com a maior cara de pau, que Lula é uma ¨continuidade¨ do último governo tucano de Fernando Henrique Cardoso, que foi um governo de crise, déficits,
apagão, desemprego, subordinação ao FMI e alinhamento aos EUA.

No contexto da política externa, de forma simples em recente entrevista, o Ministro Celso Amorim sintetizou a nossa orientação externa: ¨incomoda o Brasil agir sem pedir licença¨. Numa questão estratégica ao sistema de poder mundial, o presidente Lula deu apoio público ao programa nuclear iraniano e reafirmou sua posição critica
em relação ao monopólio nuclear. Ou como afirma o Ministro Amorim, ¨se as potências atômicas não estão dispostas a se desarmar, não têm moral para cobrar dos outros¨.

Na recente Conferência Mundial de Copenhague o Brasil ocupou uma posição de vanguarda, chegando a propor metas de redução de emissões de gases de efeito estufa, sem paralelo, da ordem de 36% a 39% até 2020, agindo na redução drástica do desmatamento na região amazônica e na dos cerrados. Mas, a questão central, por trás de toda essa discussão sobre o clima, está em saber: quais as fontes de energia para o desenvolvimento? E o Brasil é quem tem as principais fontes energéticas limpas (hidroelétricas) e projetos mais desenvolvidos de matrizes de energia renovável (biomassa).

|Mas o aspecto mais importante dessa Conferencia de Copenhague, não ressaltado pela grande mídia, que, ao contrario, procurou diversionar, está no embate travado, em última instância, entre o imperialismo norte-americano e países ricos de um lado e, de outro, os demais países do mundo, refletindo aí um quadro de um mundo em transição, na luta que se agudiza contra a hegemonia unipolar e a ascensão de novos pólos dinâmicos de poder como os Brics, que são expressão desse jogos de poder mundial na atualidade. Em Copenhague surgiu o grupo de países denominado Basic (Brasil, Índia, China e África do Sul), com a África do Sul substituindo a Rússia, ocupando o Brasil um papel de liderança nessa aliança especifica que visa definir as formas de energia para o desenvolvimento sustentável nos países ¨emergentes¨. Essa aliança foi fundamental para enfrentar os Estados Unidos, derrotando-o no seu propósito de isolar a China e impor arrogantemente meios de controle sobre os países “periféricos¨.

Por fim, o panorama na America Latina demonstra o desenvolvimento do curso ascendente democrático e antiimperialista com a reeleição de Evo Morales na Bolívia e a eleição de José (Pepe) Mujica, no Uruguai. Isso
tudo, apesar da contra-tendência hegemonista, imperialista, para fazer frente a essa tendência por soberania dos países latino-americanos, como a reativação de IV Frota Naval dos Estados Unidos e a instalação de bases militares desta potência na Colômbia.


Fonte: Blog do Renato

domingo, 20 de dezembro de 2009

HERÓI MODERNO, HERÓI ORGÂNICO*


O trabalho aqui apresentado trata-se de uma discussão sobre a figura do herói e a solidariedade orgânica, expressa na obra: “Divisão Social do trabalho (1978)”. O tema proposto faz parte de um exercício, do imaginar as infindáveis possibilidades sociológicas de investigação e interpretação da sociedade e seus intermináveis desenhos. Pois bem, neste momento faz necessário dois esclarecimentos; a conceituação da figura do herói e um apanhando sobre a solidariedade orgânica na citada obra de Ëmile Durkheim.

Comecemos pelo último, pontuada pela diferença entre os indivíduos, sendo somente possível se cada indivíduo tiver uma esfera de ação que lhe é própria, onde persiste autonomia e onde a unidade do organismo é tanto maior quanto mais marcada é a individualização das partes, assim, individualidade do todo cresce ao mesmo tempo em que a das partes; a sociedade torna-se mais capaz de mover-se como conjunto, ao mesmo tempo em que cada um de seus elementos tem movimentos próprios.

Ora, é aquela solidariedade típica das sociedades capitalistas, onde pela acelerada divisão do trabalho social, os indivíduos se tornam interdependentes. Essa interdependência anula costumes, tradições e relações sociais estreitas, mas afirma códigos e regras de conduta que estabelecem direitos e deveres e se expressam em normas jurídicas: isto é, o dogmatismo positivado no cotidiano, ou seja, fato social consumado. Nas sociedades capitalistas, a consciência coletiva perde coesão social. Assim, ao mesmo tempo em que os indivíduos são mutuamente dependentes, cada qual se especializa numa atividade.

De modo qualificado, a solidariedade orgânica é a que predomina nas sociedades "modernas" ou "complexas" do ponto de vista da maior diferenciação individual e social. Durkheim concebe as sociedades complexas como grandes organismos vivos, onde os órgãos são diferentes entre si (que neste caso corresponde à divisão do trabalho), mas todos dependem um do outro para o bom funcionamento do ser vivo. Afinal a crescente divisão social do trabalho é o que faz aumentar também o grau de interdependência entre os indivíduos.



HERÓI MODERNO, HERÓI ORGÂNICO



Voltemos há outra necessidade e primeiro esclarecimento imperativo. Segundo artigo publicado por Nelson Filho (2006) a definição de herói não é tarefa fácil e para fazê-lo, é preciso considerar a época, a sociedade, a região geográfica e levar em conta aspectos políticos, econômicos, sociais e culturais. Partindo desta delimitação, é salutar definir um aspecto temporal - o herói que cogitarei compõe o cenário atual - este indivíduo que simboliza a solidariedade orgânica de Durkheim, tão porque é o nosso objetivo, mas também venho refletindo nestes indivíduos “heróis”, conectado com uma dificuldade moderna de ser coletivo demonstrado pela diminuição de espaços ocupados pelos movimentos sociais clássicos.

Como remete à estreita identidade estabelecida por Touraine entre a cultura do século XIX e os valores da sociedade industrial, pois, acompanhando Marx e a leitura marxista, define a sociedade civil como "o espaço social da produção da vida social através do trabalho e da criação por este dos valores culturais" (Touraine, 1992a, p. 134). Com a mudança para uma sociedade pós-industrial da informação, ao contrário, “o poder consiste em inventar produtos e padrões com os quais a experiência individual e coletiva pode ser modelada" (Touraine, 1983a, p. 229). Nessa sociedade em estado de permanente mudança não sobra nada de consensual, coletivo ou institucional. O individualismo e a subjetividade reinam soberanos.



A sociedade não tem mais uma natureza, não se baseia mais em qualquer valor ou invariante; é apenas o que faz por si mesma, para melhor ou para pior. É irrelevante ou supérfluo apelar para princípios morais, lei natural, direitos humanos ou valores religiosos a fim de organizar a vida social. A sociedade não é nada senão o produto mutável, instável, frouxamente coerente de relações sociais, inovações culturais e processos políticos. (Touraine, 1983a, p. 220)



Nesse vazio criado por sua concepção do colapso da sociedade civil é que se legitima a teoria anti-societária, de Touraine, e nasce a sua teoria dos novos movimentos sociais.

Na fase industrial do capitalismo, a orientação cultural dominante era mais coletiva na forma, enfatizando o materialismo, o crescimento, o progresso e a organização. A passagem para uma sociedade da informação deu origem a uma lógica cultural de relações subjetivas, limites, autenticidade e individualidade. Isto é, o indivíduo procura manter ou recuperar o controle sobre sua própria orientação cultural e seu modo de agir lutando contra as grandes organizações que possuem a capacidade de produzir, difundir e impor linguagens e informações. [Essas organizações] produzem representações da natureza, da realidade social e histórica, do indivíduo, de certas personalidades culturais ou do próprio corpo. (Touraine, 1985, p. 280; cf. Touraine, 1983b, p. 36). No meu entendimento através da observação de grupos políticos e sociais, criando a figura do herói, onde o coletivo não é mais necessário, pois o individuo sobressai a organização.

Touraine enxerga nessa lógica cultural contemporânea uma contradição disseminada e fundamental entre as orientações daqueles que controlam as indústrias da informação e daqueles que são dominados por elas. "Os dirigentes das grandes indústrias culturais", escreve Touraine (1992a, p. 141), "falam em nome do individualismo". Mas, ao mesmo tempo em que "falam de criatividade, liberação e liberdade de escolha". Por oposição, aqueles que são dominados por essa nova classe dirigente estão comprometidos, em virtude de sua posição estrutural, com o individualismo de um modo mais radical. "No campo oposto, também se fala em individualismo, liberdade e movimento, mas de modo mais defensivo e mais “utópico”, pois, neste caso, não se fala apenas em nome do indivíduo, mas de sua capacidade e de seu desejo de defender a própria individualidade e subjetividade." (Touraine, 1992a, p. 141).

Tourraine e seus colaboradores, nos estudos etnográficos sobre os movimentos sociais, visam demonstrar que a ideologia de cada protesto específico expressa, à sua maneira, a subjetividade revolucionária de uma nova classe revolucionária, as afirmações sobre individualidade, subjetividade e libertação do controle dão muito mais a impressão de ser um verniz abstrato de intenção cultural.

Nos movimentos sociais atuais, segundo Touraine seus objetivos são expostos como autônomos e independentes em relação à dominação em si, não como vinculados aos discursos morais da obrigação coletiva. Quando Touraine (1984, p. 38) conclui que "os novos movimentos sociais nos países industrializados opõem a autonomia ao poder, não mais a razão à tradição", deixa claro que sua análise dos movimentos contemporâneos rompeu com uma sólida referência à especificidade das sociedades ocidentais. Os movimentos são apresentados como meros protestos institucionalmente específicos contra a sociedade capitalista tardia, inspirados numa cultura tão subjetiva e individualista que suas várias expressões se tornam apenas meios transparentes através dos quais atores individuais e grupos de interesse se manifestam.

E assim, a sociedade civil é que resulta dos movimentos sociais, não o contrário: Nessas sociedades altamente industrializadas, os conflitos e debates atingem uma determinada unidade de modo autônomo, sem a interferência de um princípio unificador externo [...] A ação de uma tecnocracia dirigente [...] é criar uma tentativa de impor aos cidadãos um determinado tipo de vida social. Uma sociedade mais civil, por outro lado, uma sociedade que seja uma extensão da democracia, é inevitavelmente produto de lutas sociais e processos políticos. (Touraine, 1984, p. 40).

Se os movimentos sociais são bem-sucedidos, Touraine (1983a, p. 229) alega então que o resultado é a formação de uma nova sociedade civil pós-clássica: "Essas lutas podem ampliar a área da atividade política ou criar [...] uma nova sociedade civil que emerge do próprio vácuo do espaço público da sociedade pós-industrial.” Quando Touraine alega que os sociólogos contemporâneos devem "procurar compreender as condições de existência, autonomia e desenvolvimento da sociedade civil", identifica essas condições com a busca do entendimento das "relações sociais, conflitos e processos políticos que tecem a trama da sociedade civil" (idem, pp. 233-234).


CONCLUSÃO


Na base do programa revolucionário de Touraine (1983b, pp. 140-144) encontra-se o argumento de que, com a emergência da sociedade industrial, a combinação histórica entre democracia, movimentos sociais e revoluções chegou ao fim. Particularmente no século XX, movimentos sociais e democracia "não são apenas diferentes como freqüentemente opostos" (idem, p. 144). Mais do que a criação de uma sociedade política justa ou a abolição de todas as formas de dominação e exploração, o principal objetivo da democracia deve ser permitir que indivíduos, grupos e coletividades se tornem sujeitos livres, produtores de sua história, capazes de reunir em sua ação o universalismo da razão e as particularidades da identidade pessoal e coletiva. (Touraine, 1994, p. 263)

Para Touraine, só existe movimento social quando a ação coletiva é dotada de objetivos sociais, quer dizer, reconhece a existência de valores e interesses sociais gerais e, em conseqüência, não reduz a vida política a um confronto entre campos ou classes, ainda que organize e acirre conflitos. Somente nas sociedades democráticas é que os movimentos sociais se formam sozinhos, pois a livre escolha política obriga cada ator social a lutar simultaneamente pelo bem comum e pela defesa de interesses particulares. Por essa razão, os movimentos sociais mais expressivos recorreram a temas universalistas: liberdade, igualdade, direitos do homem, justiça, solidariedade, temas que estabelecem um nexo direto entre o ator social e o programa político. (Touraine, 1994, p. 88)

Finalmente, estes temas universais produzem, hoje, nos movimentos sociais uma super-estimação em indivíduos como interdependentes do coletivo, mas sem pontos de rede que se cruzam - uma interdependência que valoriza o indivíduo e esse por vez crê que faz sua “parte”, na luta por justiça social isolado do coletivo, onde com o avanço da internet, os movimentos sociais são muitas das vezes redes virtuais e o coletivo, se polariza, nos cabos cibernéticos, forjando-se heróis que desprezam o coletivo e a luta de classe, surgindo-o na sociedade com uma capa de poder onde está escrito “vou salvar o mundo”, mas logo este se frustra, e muda o slogan para: a luta social não empreende conquistas.


* Sumayra de Oliveira


REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BUONICORE, Augusto César. Marxismo, História e Revolução Brasileira: Encontros e Desencontros. São Paulo: Anita Garibaldi, 2009.


DURKHEIM, Emile. Divisão Social do Trabalho. São Paulo: Nova Cultura, 1978.



FILHO, Nelson Nascimento. O homem comum e a percepção do herói na sociedade contemporânea. Inrevista: ano 1, nª 2, 2 Ed. 2006.



GRAMSCI, Antonio. Gramsci – Poder, Política e Partido. São Paulo: Expressão Popular, editora, 2005.


http://74.125.155.132/scholar?q=cache:wqYMEjTdYNoJ:scholar.google.com/+perda+de+for%C3%A7a+dos+movimentos+sociais&hl=pt-BR&as_sdt=2000 ‹Acesso em 3 de set de 2008›



TOURAINE, A. (1983a), "Triumph or downfall of civil society?". Humanities inReview, 1: 218-234


__________. (1983b), Anti-nuclear protest: the opposition to nuclear energy in France. Cambridge, Cambridge University Press



__________. (1992a), "Beyond social movements". Theory, Culture, and Society, 9: 125-145



__________. (1992b), Critique de la modernité. Paris, Fayad.



__________. (1994), Qu'est-ce que la democratie? Paris, Fayad.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Artigo Teoria Política Moderna / Cinema

Cinema e pipoca com convidados ilustres, mas sem chiclete no fundo das cadeiras.
*Sumayra Oliveira
INTRODUÇÃO O Trabalho proposto são diálogos entre quatro obras cinematográficas com cinco mestres clássicos, da teoria política moderna: Maquiavel, Montesquieu, Hobbes, Locke e Rousseau. Os filmes aqui dissertados são: “Peões” de Eduardo Coutinho; o documentário “A revolução não será televisionada”; “Crise é o Nosso Negócio”, filmado pela cineasta americana Rachel Bonyton; e Persepólis, um filme francês de animação, baseado no romance gráfico autobiográfico de Marjane Satrapi.
Este artigo é um desafio estigante; contemporanizar grandes produções, não no sentido de dinheiro gasto com fotografias, ambientes e chachês, mas, de conteúdo formador histórico, conectado-os com a filosofia política moderna, onde consta nossas referências de organização do Estado, Sociedade, Moral, liberdade, Justiça e Direito, todo o movimento que surge no renascimento , fazendo com que o homem olhasse para si mesmo, buscando uma nova forma de conhecimento e que fosse pautado unicamente na razão, ou seja a construção de uma nova Ciência, que se desenvolveu paulatinamente, até culminar, no século XIX, com a consolidação da Ciência Moderna.
E esta é a primeira parte deste artigo, o caminho percorrido pelos autores referência da ciência política moderna. Em segundo momento, uma descrição opinativa sobre as obras cinematográficas, citadas no primeiro parágrafo. E por ultimo, ponto alto do trabalho, a impressão dos autores: Maquiavel, Montesquieu, Hobbes, Locke e Rousseau, convidados para assistirem os filmes, objeto desde artigo, e debaterem sobre os mesmos.
Teoria Política Moderna
Cabe neste momento discorrer sobre a ciência política moderna, para assim atingir o objetivo deste trabalho, que são os diálogos entre as obras cinematográficas (Peões; A revolução não será televisionada; Crise é o Nosso Negócio e Persepólis) com os autores que seguem: Nicolau Maquiavel é um dos mais importantes pensadores de todos os tempos, especialmente para o campo da política, por um motivo bastante simples: ele foi o primeiro a dissociar a política da moral. A característica mais marcante de sua obra é base na análise da história, uma vez que, procurou aprender com as ações dos grandes homens nos grandes momentos da história, já que quis compreender a natureza do homem na história, e como este se comportou ao longo dela.
Essa "análise retrospectiva" dos fatos históricos levou Maquiavel à constatação de que, ao longo de toda ela, os homens mostraram-se sempre os mesmos: ingratos, volúveis, simuladores, covardes e ávidos por lucro. Por essa razão, um governante (Príncipe) que pretendesse comandar o Estado deveria possuir duas características imprescindíveis: força e inteligência. A primeira, para conquistar o poder; a Segunda, para mantê-lo e os expedientes utilizados pelo Príncipe para a manutenção da ordem no Estado, seria determinado por cada situação assim, Maquiavel inaugura, a "moral de circunstância", que era completamente avessa à velha moral católica. Pelo fato de ter atribuído ao estudo da política um caráter de independência, Maquiavel é considerado por muitos o "Pai da Ciência Política", embora esta somente tenha se firmado efetivamente como a concebemos hoje, a partir do século XIX.
A política de Montesquieu, exposta no Espírito das Leis (1748), surge como essencialmente racionalista. Ela se caracteriza pela busca de um justo equilíbrio entre a autoridade do poder e a liberdade do cidadão. Para que ninguém possa abusar da autoridade, "é preciso que, pela disposição das coisas, o poder detenha o poder". Daí a separação entre poder legislativo, poder executivo e poder judiciário. Montesquieu, possui sobretudo concepção racionalista das leis que não resultam dos caprichos arbitrários do soberano, mas são "relações necessárias que derivam da natureza das coisas". Assim é que cada forma de governo determina, necessariamente, este ou aquele tipo de lei, esta ou aquela psicologia para com os cidadãos: a democracia da cidade antiga só é viável em função da "virtude", isto é, pelo espírito cívico da população.
O desenvolvimento das idéias acerca da origem do mundo e das coisas, advindas do distanciamento entre a produção do conhecimento e a moral católica, engendrou a procura por novas explicações acerca do surgimento da sociedade civil. Como surgiram as primeiras sociedades? Foram famílias que cresceram e formaram os primeiros agrupamentos humanos, que mais tarde deram origem às vilas e, posteriormente às cidades? E o Estado? Como surgiu? O Estado antecedeu a sociedade, ou a sociedade veio antes do Estado? Por que as pessoas devem obedecer às ordens emanadas no âmbito do Estado? Como pode justificar e legitimar o poder do Estado sobre os indivíduos?
A doutrina contratualista procurou responder a algumas dessas perguntas. Apesar das divergências existentes entre cada autor contratualista, há uma conexão entre suas teorias. Para os contratualistas, a sociedade antecedeu o Estado. Primeiramente, os indivíduos se uniram em grupos, que eram a princípio desorganizados do ponto de vista do poder político, e onde imperava, diante da ausência de uma autoridade geral e de regras de convivência, a lei do mais forte. Nesse momento, ao surgir um conflito de interesses entre dois ou mais indivíduos, venceria o que fosse forte. A esse estágio, os contratualistas chamam de estado de natureza. Vive aí, o homem, em estado de absoluta natureza, em que predomina a força, e a violência é a única forma de solução de conflitos. O estado de natureza caracteriza-se pela insegurança, pela incerteza e pelo medo.
Os contratualistas pregavam que, em determinado momento, desejando os homens instaurar a segurança e a paz social, reuniram-se todos e celebraram um contrato, a que chamaram de contrato social, ou pacto social. Através desse contrato, todos concordaram em abrir mão de parte ou de toda sua liberdade, transferindo-a para um soberano, que teria por incumbência organizar a sociedade e manter a paz, solucionando os conflitos, diminuindo assim as desigualdades relacionadas à força física. É a partir desse ponto que os autores começam a divergir: cada um acredita em uma forma de governo, e defende um projeto político.
Para Thomas Hobbes, o homem era naturalmente mau, mesquinho, invejoso e egoísta. Seu grande objetivo na vida era obter mais vantagens do que os outros. Assim, segundo Hobbes, vivendo no estado de natureza, a humanidade tendia a viver sempre em conflito, guerras e disputas entre si. Dessa forma, seria difícil para o homem preservar seu bem maior – a vida, uma vez que, por exemplo, mesmo os mais fortes são vulneráveis quando dormem. Para acabar com esse clima de "guerra eterna", os homens se reuniram e celebraram um pacto social, através do qual abdicavam de parte de sua liberdade, em favor do soberano, que passaria a ter plenos poderes para organizar a sociedade e dirimir os conflitos, impondo aos indivíduos a sua decisão. Hobbes foi, dessa forma, um ferrenho defensor do absolutismo. Para ele, apenas dispondo de plenos poderes, o soberano poderia manter a paz e a ordem na sociedade. Poderia se julgasse necessário, matar, mentir, não manter a palavra empenhada, sem dever quaisquer satisfações a quem quer que fosse.
A importância de John Locke é o fato de haver representado, talvez pela primeira vez, o ideal político de uma classe, naquele momento em franca ascensão no cenário político e econômico europeu: a burguesia. Locke, avesso ao ideal político hobbesiano, foi o defensor por excelência da manutenção do poder político do Parlamento inglês, em contraposição ao absolutismo do rei e acreditava que cabia ao Estado proteger a propriedade privada, a ordem e a paz, e que, na medida em que não o estivesse fazendo a contento, seria perfeitamente possível e lícito desfazer o pacto, já que o mesmo não cumpria sua finalidade.
Rousseau ao contrário de Hobbes acreditava que o homem era essencialmente bom: vivendo no "estado de natureza", não era capaz de fazer o mal, exceto para se defender; sendo tudo acessível a todos, não havia motivo para disputas interpessoais. Portanto, para Rousseau, os homens seriam naturalmente bons, e seria a sociedade a lhes corromper, assim não sendo possível voltar ao estado de natureza, o iluminista busca desenvolver um sistema político que minore as diferenças entre os homens, criadas pela sociedade civil. Rousseau se referia, principalmente, ao falar em "diferenças", da propriedade privada, para ele, a mãe e rainha de todas as misérias humanas. Os homens, assim, na concepção rousseauniana, firmaram um pacto, o contrato social, segundo o qual todos governariam juntos, em prol do bem comum. Rousseau pregava, portanto, que o Estado existia não para defender interesses particulares, e sim para defender a "vontade geral". Isso foi tão enfatizado por Rousseau, que ele chamou a vontade geral, ou seja, a opinião comum de todos os cidadãos de "soberano".
OBRAS CINEMATOGRÁFICAS
1. 1 A revolução não será televisionada
Lembro-me perfeitamente do dia em que assisti ao filme: “A revolução não será televisionada”, um raro domingo em casa, deitada no sofá da sala e com o controle da televisão em minhas mãos, feliz por todo esse domínio precioso, mas com um velho tédio. Afinal, o que fazer com tanto poder assim, diante de canais de tevê que parecia não querer cooperar para minha inatividade. Então comecei a maratona de percorrer as setas do controle, vantagens dos canais fechados, e de repente na teve Câmara: “A revolução não será televisionada”. Como fiquei feliz, percebendo a utilidade do meu ócio. Nunca tinha ouvido falar deste documentário, isto foi em 2006 ou 2007. No outro dia, e durante muitos dias, esse foi o principal assunto com as pessoas que conhecia e em todos os lugares em que estive.
A Revolução não será televisionada é um documentário filmado em tempo real dentro do Palácio Miraflores, durante o golpe de Estado contra o governo do presidente Hugo Chávez, em abril de 2002. Nem a própria população venezuelana conseguiu acompanhar, muito menos o restante do mundo. Com bastante propriedade, o documentário consegue mostrar a permanente campanha de mentiras forjada pelos meios de comunicação contra o governo de Hugo Chávez, as relações da grande mídia com a elite econômica, militares dissidentes e a articulação dos EUA na manipulação dos fatos. Evidencia também a intervenção direta do imperialismo norte-americano na organização do golpe, em sua preparação e organização na embaixada americana em Caracas que foi, posteriormente, comprovada com documentos.
As articulações que envolveram a grande mídia na tentativa golpista foram por ela mesma reveladas, momentos depois de empossarem Pedro Carmona. Momentos, aliás, muito bem registrados no documentário: mostram a arrogância do procurador, designado por Carmona, ao anunciar a dissolução do Congresso, da Corte Suprema e revogar a Constituição, e depois de algumas horas, todo assustado, ao ser preso, num canto de uma sala do palácio. Outro aspecto importante do documentário é a revelação da manipulação dos canais de televisão comerciais sobre os responsáveis pelos assassinatos dos manifestantes em 11 de abril de 2002. Todos os canais privados de televisão que, junto à imprensa escrita e radiofônica, justificaram o golpe de estado de 11 de abril com uma edição de imagens em que aparece um grupo de apoiadores de Chávez, situados na Ponte Llaguno de Caracas, realizando disparos. Estas imagens foram utilizadas para afirmar que "Chávez foi quem ordenou disparar contra a multidão".
O ponto alto do documentário é registrar a força das massas exploradas que derrotam os golpistas e restituem o governo a Hugo Chávez. O povo enfrentou e passou por cima de toda a mentira, fraude, manipulação da informação, da repressão iminente e mostrou que é mais forte. Não aceitou as “notícias”, e saiu às ruas na manhã de sábado, 13 de abril, para denunciar que Chávez “não renunciou! Está seqüestrado!” e “não te queremos Carmona! Ladrão!”. Centenas de milhares de pessoas nas ruas cercam o Palácio Miraflores para exigir “Queremos a Chávez!” e clamar “Chávez não se vá!" È claro que ele não se foi, a volta de Chaves ao Palácio Miraflores e voz de prisão do exercito venezuelano aos golpistas é a claro anuncio da força de novo projeto de desenvolvimento da América Latina. Para terminar reproduzo aqui a fala Hugo Chaves, em entrevista a Marta Harnecker
1.2 Crise é o nosso negócio
O documentário trata do casamento desonesto entre a política e o marketing. De fato é sobre a empresa de marketing político que ajudou o opositor de Evo Morales - o ex- presidente Gonzalo Sanches de Lozada - a vencer as eleições em 2002, na Colômbia. Contratada para elaborar as estratégias eleitorais de Lozada, a empresa põe em prática técnicas agressivas de manipulação de opinião; o objetivo é reformar a imagem de Gonzalo e virar o jogo na reta final das eleições. Nessa eleição, Morales perdeu por um ponto. É um registro histórico mesmo, tanto das crenças que povoam o mercado atual - as fórmulas para vender um produto, no caso um candidato e um programa de governo. E ainda, a cegueira da imprensa, que compra as versões oficiais e despreza barulhos ensurdecedores das populações em locais em que a câmera não está ligada.
1.3 Peões
O Filme de Eduardo Coutinho começa no Ceará e vai para as greves de São Bernardo do Campo no começo dos anos 80, tratando não apenas de para onde foram os operários participantes do movimento sindical, mas de onde vieram os operários que constituíram a classe operária brasileira. Uma cena de Peões é absolutamente determinante para o filme, é quando o diretor reúne-se em uma sala com alguns sindicalistas, para que eles, diante de imagens de filmes antigos e fotografias de jornal e de arquivos, apontem os possíveis outros personagens para o documentário. Um trabalho espetacular de rede de relações, alguém, que se lembra de alguém, que conhece alguém que possa saber de outro.
É assim que se constitui a pesquisa do filme, as entrevistas são marcadas por esses laços, onde os personagens só puderam ser encontrados porque, deixaram marcas para trás. E é dessas marcas que fala o filme. Nele, pulsa uma forte tensão, entre a memória e a história: seus personagens pertencem de fato a uma categoria, que dialogou com a macro-história. Não são apenas pessoas, mas pessoas que tomaram parte do movimento operário que promoveram as grandes greves no ABC em 1979 e 1980.
Há uma tensão, então. E ela está marcada na montagem. Isso porque às falas dos personagens juntam-se imagens dos filmes usados para reavivar-lhes a memória, filmes que são, antes de tudo, documentos históricos. “Juntam-se”, isso porque um clichê habitual de documentário historiográfico é o uso do depoimento de testemunha para legendar uma imagem de época, não é o que acontece fazer isso seria criar um sentido de composição a priori. Em vez disso, edita em separada, trecho de filme em um momento, falas dos personagens em outro. Juntar, então, é pôr frente a frente, opor.
Essa oposição é o próprio sentido do filme. As falas dos personagens não servem para comprovar ou desmentir as cenas históricas e nem para testemunhas sua participação nelas. Em vez disso, servem para reconstituir particularidades onde a historiografia impõe noções como às de “classe”, “movimento” ou “partido”. Essa tensão entre particular e universal é ao mesmo tempo circunstancial e determinante.
A fala final assume um tom de síntese: define a categoria. Ser peão é, em certo sentido, uma dualidade. É ser um soldado raso da industrialização brasileira, explorado e chamado à luta pela igualdade, mas é, ao mesmo tempo, fazer parte de uma elite intelectual e artística: o peão sabe seu ofício, conhece-o como poucos, executa-o como ninguém. É aquele sem o qual a fábrica (na época dos filmes de arquivo) não funcionaria, mas é aquele que a fábrica (na época realista de hoje) não pode mais manter.
Nesse sentido, enquanto problematiza o choque entre memória e história e a definição estanque de categorias limítrofes, Peões ainda se insere na filmografia de Coutinho como um filme de visão de mundo: toda nostalgia desconstrutiva que se poderia afirmar ao se olhar para trabalhadores saudosos da “era das revoluções” ou para a decadência de quem já foi outrora soldado da transformação e agora se acomoda na velhice doente se transforma em índice de que a política é, no limite, uma moral. Peões não é um filme emocional, embora emocione. É um filme sobre as possibilidades políticas na vida cotidiana e suas escolhas.
1.4 Persepólis
Persepólis expõe os crimes da República Islâmica. Mas, não oscila no papel do Ocidente, ao levar fantoches ao poder e na repressão das massas. Podemos perceber papel da Grã-Bretanha no golpe de estado, o saque ao petróleo do país, o treino dos torturadores pela CIA. e na venda de armas pelos países ocidentais a ambos os lados da guerra Irão - Iraque. Tudo isso são lembranças de que o Irão não existe num vácuo, mas faz parte de um sistema que espalhou os seus tentáculos por todo o globo e que a luta que aí ocorre faz parte da luta contra esse sistema global. O Filme conta a história essa história, a história do Irão através da vida de uma criança (Marjane). Ela tem nove anos quando a revolução insurgiu no país e levaram sua família às manifestações, estamos falando da revolução iraniana de 1979 e o que se lhe seguiu - O derrube da monarquia levou à chegada ao poder da República Islâmica.
Uma cena interessante do filme e quando logo após a revolução, numa rua de bairro, Marjane e outras crianças perseguem um menino cujo pai é membro da polícia secreta e torturadora do regime deposto. Mas quando o confronta, ela não lhe consegue bater. Mais tarde, o deus de Marjane diz-lhe para não se preocupar e deixar a justiça para ele. Por outras palavras, a esperança de que a revolução corrigirá as coisas ainda anda no ar. Mais tarde, após a execução de líder da revolução, o deus aparece novamente, mas desta vez invoca fraqueza e diz que está impossibilitado de fazer alguma coisa. Agora a revolução está derrotada.
Esse deus faz outras aparições no filme; ao fracassar na sua tentativa de encontrar uma vida nova no estrangeiro, Marjane fica cansada da vida e quer morrer e assim Marx acompanha deus nessa cena. Aqui entramos num outro episódio do filme: o contato de Marjane com o Ocidente, a primeira experiência amorosa de Marjane ocorre na Áustria – e acaba traída. O seu coração desfeito, a solidão e a nostalgia tornam a vida tão difícil para ela que decide voltar ao Irão – o Irão de 1988, após o massacre de presos políticos pelo regime, depois da guerra com o Iraque. Quase um milhão de pessoas tinham morrido ou ficado incapacitadas. Inúmeras ruas foram rebatizadas com nomes de mortos e um passeio pela cidade era “um passeio por um cemitério”. O fracasso de Marjane na Áustria, combinado com o cinzento e o peso da morte em Teerã, tiram-lhe as forças. Começa a pensar na morte. É aqui que deus (e Marx) lhe aparecem e lhe dizem para ser forte. Marx salienta com um sorriso que a luta continua. Marjane decide não abandonar a esperança. Faz os exames, vai para universidade e dá início a mais um episódio da sua vida.
Este filme coloca importantes questões sobre a revolução. Uma Revolução sempre abala as velhas relações e abre caminho à criação de novas relações. Mas, quando a liderança está na mão de forças cujo interesse é preservar a velha ordem sob uma nova forma, como foi o caso do Irão em 1979, às tendências retrógradas entre as pessoas podem ser reforçadas e transformadas numa ferramenta nas mãos da nova classe dominante. Uma dessas tendências é a de usar as oportunidades oferecidas pela situação para autopromoverem-se e tentarem obter posições a que antes não tinham acesso. Por vezes, essa tendência está ligada a um sentimento de vingança contra os que no passado tinham posições privilegiadas.
Cinema e pipoca com convidados ilustres, mas sem chiclete no fundo das cadeiras.
Ir ao cinema ou assistir um filme em casa com os amigos é um ato simples – a não ser, é claro que você tenham convidados ilustres como Maquiavel, Montesquieu, Locke, Hobbes e Rousseu. Enquanto preparo os filmes, os meus convidados observam atentamente o notebbok, a tela de projeção, o data-show, MP3 payer e o celular na mesa à frente das pontronas, na qual inclusive, tive o cuidado de retirar os chicletes colados pelos adolescentes da sessão anterior, imagine só um deles com as mãos grutadas por um chiclete babado e nojento, isso podia levar o “cine-clube” por água abaixo, lenvatariam e iriam embora, com a certeza que neste mundo ninguém repeita mais ninguém, e o homem continua ingrato, mau por natureza e que falta que faz um príncipe ou sistema absolutista ou um contrato social, a não ser claro que isso seja da votade geral de todos.
Nos trajetos que Maquiavel percorreu do túmulo da família na Igreja de Santa Croce em Florença, Locke na igreja paroquial de High Laver, Hobbes da igreja de Hault-Hucknell, Montesquieu da capela de Sainte-Geneviève, na igreja de Saint-Sulpice e Rousseau do Panteon em Paris, até os aeroportos, eles contaram que ficaram surpresos com a riqueza, caos e os barulhos do mundo moderno, Maquiavel nessa hora riu , porque eles se achavam modernos até então, disseram que as cidade eram mais sujas e que desordem ainda reina, em compensação em suas época, ninguém pagava tão caro e por um pacote de pipoca.
Pois bem coloquei o primeiro filme – A Revolução não ser Televisionada, ao fim da exibição, Maquiavel foi o primeiro a falar:
- Olha Minha cara, primeiro é preciso dizer que governados e governantes, dirigentes e dirigidos existem realmente, e haverá campos oposicionistas utilizando a “força”. O que era preciso a este “Príncipe”, Chávez num isso? (Balanço a cabeça afirmando que sim). É distinguir as linhas de menor resistência, ou linhas racionais, para obter a obediência de dirigidos e governantes, Ele (Chávez) quis uma revolução passiva, mas não leu minhas obras muito bem (risos). A revolução passiva que falo é no sentido usado por Cuoco, no primeiro período do Renascimento italiano, podendo relacionar-se ao conceito de guerra de posições. E o opositor ao Senhor Chávez, utilizou da guerra de manobras, mas não tinha apoio dos súditos e assim graças a eles (súditos) retomou o poder... Montesquieu nesse momento pede a palavra e segue falando:
- È justamente isso que percebi Maquiavel, a função da virtude, o espírito cívico da população na busca do justo equilíbrio entre a autoridade do poder e a liberdade do cidadão.
Nessa hora surge um murmurio contratualista: - Não não não, faltou sim um pacto social. Intervenho e digo: - pois bem senhores, gostaria de ouvi-los. Hobbes inicia:
- Para que essa tal de democracia? Por que o Sr. Chávez não matou seu inimigo assim que chegou ao poder?
Locke interrompe e diz: - Você sempre foi um desequilibrado Hobbes! Veja, você fez um pacto que só você participou (muitos risos na sala). Talvez o Senhor Chaves, não fez um governo a contento da burguesia, então foi legitimo a retirada dele, do poder, pela elite.
- Por favor, diz Rousseau, todo o problema enfrentado é de responsabilidade única da propriedade privada. O Locke não assistiu ao mesmo filme que nós, pois a vontade geral da população era pelo governo do Senhor Chávez e isto deveria ter sido respeitado, pelo oposicionista.
Seguindo o “cine-clube”, exibo o segundo documentário – “Crise é o nosso Negócio”. Ao final um silêncio constrangedor, pergunto se querem alguma coisa e se está tudo bem, quase que em coro, meus convidados perguntam:
- Afinal o que é esse tal marketing? E essa especulação do mercado financeiro? Campanhas para vender produtos? E produtos que viram governo?
Antes que respondesse, Hobbes, falou:
-Não sei responder tais perguntais, mas sei que deveria ter pensando nisso - uma teoria do caos para impor o absolutismo.
- Bom, posso dizer aos senhores, que essas são as armas para conquistar o poder, no século XXI - a informação e o mercado rentista. Hoje por exemplo, a Economia da Informação é um campo de estudos interdisciplinar entre a Economia, a Ciência da informação e a Comunicação que trata da informação como mercadoria e bem de produção necessária para o sistema capitalista pós-industrial. Mas, como voçes ainda tem que fazer a viagem de volta, vamos ao terceito filme – Peões. Desta vez Rousseu inicia o debate:
- Vejam voçês como eu estava certo, quando disse que os povos, como os homens somente são dóceis quando jovens, à medida que envelhecem tornam-se incorrigíveis. Não é por isso que, assim como alguma enfermidade transtornam o juízo dos homens tirando-lhe a lembrança do passado, não se encontre alguma vez na existência dos Estados, essas imagenns que senhora me mostrou, são passagens que os indivíduos envolveram o Estado em suas lutas civis, mas este renasceu e a empresa reconquistou o vigor da juventude, Num é isso?
Balanço a cabeça como se não discordasse muito menos concordasse. Locke começa divagando: - Olha Rousseau, o Estado não conseguiu manter a ordem e a paz. E neste caso o pacto seria o contrato de trabalho entres os trabalhadores e as indústrias, então esta rompesse com aqueles e fizessem outro, onde a paz voltasse e todos seriam privilegiados.
- Pois é Locke e Rousseau, deveriam ter lido o Espírito das Leis, diz Montesquieu: neste caso não existiam leis racionais, onde fosse deixado de lado o capricho do Estado e das Indústrias, afinal as relações devem basear-se na natureza das coisas, se assim fosse este conflito não teria existido.
Nessa hora Maquiavel com um sorriso pequeno em sua boa pequena, franze a testa e diz:
- Ora ora ora, um critério básico de julgamento, seja para as concepções de mundo, seja sobretudo para comportamentos práticos, é o seguinte: a concepção do mundo ou ato prático podem ser concebidos “isolados”, “independentes”, tendo sobre si a responsabilidade da vida coletiva; ou isso é impossivél e, então, o ato prático e a concepção de mundo podem ser percebidos como “integração”, aperfeiçoamento, contrapeso, de uma outa concepção ou atitude prática. Se reflertimos, veremos que esse critério é decisivo para um julgamento ideal sobre os movimentos de ideiais e sobre os movimento práticos.
- Ai ai ai, então ele é o bom racionalista, continuou dizendo, se o dono da indústria ou o Rei (Presidente República) disposesse de pleno poderes, isso ai não teria acontecido.
Assim fechou Hobbes a penúltima rodada de debate. Enfim passamos ao quarto é ultimo filme - Persepólis.
- Eu começo, porque esse assunto é comigo! Afirmou Maquiavel. – Na guerra, uma vez atingido o objetivo militar, faz –se a paz. Aliás, é oportuno observar que basta que o objetivo estratégico seja atingido para que a guerra acabe. A luta politica é enormemente mais complexa, não se pode imitar os métodos de luta das classes dominantes, sem correr o risco de cair em emboscadas fáceis.
- Tá aí um filme que gostei - afirma Hobbes - só a não comprendi o que essa criança desagradável faz neste contexto e porque a monarquia foi derrotada.
Nessa hora Locke aumenta a voz:
- Perdi a paciência, com o Hobbes não dá! Da próxima vez que ele vier não venho. Sempre falei, é um desequlibrado e não volto sentado do lado dele.
Maquiavel volta ao debate, é como um excelente analista histórico responde:
- Hobbes é apenas uma criança iraniana comum, de uma família intelectual com uma existência confortável. A Idéia do filme foi de retratar a história do país, através da narrativa de uma vida particular e invulgar. A história que integra a herança familiar da criança e que define a sua vida faz parte da herança coletiva que molda a existência, as esperanças e os sonhos de todos nós.
- Por isso vou de contar um segredo Maquiavel, que todo universo sabe menos você. Aqui é considerado o pai da política, diz Rousseau completando: quando um membro da comunidade se entrega a ela no instante em que a mesma se forma, tal como ela se acha naquele momento, ele e todas as suas forças, das quais participam também seus bens. E não é que por este fato a posse mude de natureza mudando de mãos e sua propriedade se transforma na do soberano, porém, como as forças da cidade são maiores do que as de um particular, a posse publica é também, de fato, mais forte e irrevogável, sem ser mais legitima, porque assim o Estado é senhor de todos os bens.
- Ainda não falei, porque estou decepcionada e arrasado com a contemporaneidade, de nada adiantou minhas obras, deixadas para a humanidade, não há Lei nem Justiça que proteja o povo. Aliás, já esta na hora de voltamos para o além. Agora que Deus nos convenceu de sua existência vive nos chamando para bater um papo sobre filosofia (Monstequieu levanta da cadeira e chama o restante). Bem foi um prazer! Ah é você que vai pagar as pipocas num é?
* Sumayra Oliveira é Graduada em Tecnologia de Desenvolvimento Social, Cursa segunda graduação em Ciências Sociais- IFET. Atualmente é Diretora de Documentação e Pesquisa da Câmara Municipal de Uberaba. Referência Bibliográfica
GRAMSCI, Antonio. Gramsci – Poder, Política e Partido. São Paulo: Expressão Popular, editora, 2005.
http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=7417 Acesso em: 2 dez 2009
http://www.contracampo.com.br/64/peoes.htm Acesso em: 4 dez 2009
http://www.mundodosfilosofos.com.br/iluminismo.htm Acesso em: 5 dez 2009
http://www.paginavermelha.org/noticias/071008-persepolis.htm Acesso em: 4 dez 2009
http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=1338&id_secao=7 Acesso em: 4 dez 2009
http://www.viomundo.com.br/loucuras-que-eu-vi/eles-globalizaram-o-marketing-da-crise/ Acesso em: 4 dez 2009
ROUSSEAU, Jean-Jacques. O Contrato Social. Rio Janeiro: Ediouro, sem data

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

DIÁLOGOS ENTRE A SOCIOLOGIA POSITIVISTA E O FILME ADMIRÁVEL MUNDO NOVO*

Admirável Mundo Novo – 1998 - é a versão de maior sucesso do Livro. O filme é sobre uma sociedade de pessoas que, através da eugenia, foram criados de maneiras específicas, que vão desde os Alfas, que são os políticos, para o Deltas, os que fazem o trabalho servil. É uma espécie de sistema de castas, e além da programação genética, as pessoas são psicologicamente condicionado a aceitar a "casta" de que eles pertencem e ser feliz com isso. Como uma forma final de controle, os cidadãos do admirável mundo novo também são viciados em uma droga inebriante, Soma, que os mantém em um estado constante de felicidade.
Nesta utopia, existe também uma Reserva Selvagem, onde estão as pessoas que não vive este estilo de vida, condicionado. A história começa quando, John Cooper (Tim Guinee) e sua mãe Linda (Sally Kirkland), são trazidos para o mundo civilizado por dois Alfas, Bernard Marx (Peter Gallagher) e Lenina Crowne (Rya Khilstedt). Cooper entra no admirável mundo novo com esperança e entusiasmo. "O Selvagem" conhece ainda a maneira como são "educadas" as crianças e como vivem as pessoas neste mundo e não entende muitas coisas e outras tantas acontecem em sua vida, que o levam a grandes reflexões. Um exemplo é quando em um hospital John vê várias crianças ao redor de um doente muito mal, quase perto da morte, ele fica espantando, mas a enfermeira explica que é preciso ensinar desde cedo às crianças com a morte.
Esta nova civilização baseada em condicionamento, com frases prontas e respostas prontas para tudo, traz também um personagem presente quase todas as situações e acontecimentos na história, o Soma, uma espécie de droga que serve como ponto de fuga para os problemas "sentimentais" das pessoas.
O conceito de felicidade e suas possíveis ligações com os pressupostos positivistas mostrados no filme “Admirável Mundo Novo”
Esta história ilustra a questão do controle totalitário. Quando a história de Huxley, que precedeu a Segunda Guerra Mundial, mostra um sistema genuinamente com intenções benevolentes, à felicidade superficial é atingida não apenas a um custo de liberdade individual grande, mas também sacrificando a ciência, a arte e a filosofia, e re-escrevendo a história. Como o filme tenta mostrar, no montante de condicionamento pode extinguir o espírito humano para viver e pensar livremente. Nesta perspectiva, pensando positivistamente a felicidade é uma conquista objetiva, tendo como caminho uma droga distribuída pelo governo, pois a "Felicidade universal mantém as rodas da sociedade de forma constante mudança."
Como é óbvio, o filme não é sobre o enredo ou personagens, mas realmente sobre os conceitos apresentados. Reprodução e educação estão sob o controle estrito do governo, e a felicidade é a única coisa que qualquer cidadão deveria prosseguir. A mensagem que a felicidade pode ser encontrada ainda é agradável, mas Huxley estava falando sobre a sociedade, como rolo compressor, se a "ortodoxia ameaça a sociedade” há aqui um contra censo com sociologia positivista, que procura classificar e organizar a sociedade em um estudo de evolução da mesma, mas há também uma proximidade quando traz a felicidade para o campo do concreto e estabelece-a como uma meta evolucionista.
O ser humano, no filme, é o mesmo por toda a parte e em todos os tempos, em virtude de ser uma incubadora geradora dos homens e a felicidade é a meta. No pensamento positivista, isto é uma verdade absoluta, em virtude de possuir idêntica constituição biológica e sistema cerebral e o homem compreende as relações entre as coisas e os acontecimentos, através da observação, formulando leis, portanto não mais procura conhecer a natureza intima das coisas e as causas absolutas, característica intima da realidade dos habitantes do Admirável Mundo Novo, em busca da felicidade como forma de organizar a sociedade.
* Sumayra Oliveira
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA LAKATOS, Eva Maria. Sociologia Geral. 7 ed. São Paulo: Atlas, 1999.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Conferência de Comunicação: caem as máscaras e as ilusões.

Alguns atores políticos do campo da comunicação acreditam firmemente que a presença das empresas vai conferir uma legitimidade maior, especial, à 1ª Conferência Nacional de Comunicação.
Por Rogério Tomaz Jr.*, no Observatório do Direito à Comunicação
Outros chegam a embarcar no discurso pseudonacionalista de instituições que, sem exceção, sempre defenderam — e contribuíram ativamente com — a política entreguista de todas as riquezas do Brasil ao capital estrangeiro, vigente sem restrições até 2002.
E ainda há quem creia ser politicamente viável e concretamente possível se chegar a consensos — leia-se: conciliação — com os (tu)barões da mídia que permitam ganhos reais para a sociedade na luta para a democratização da comunicação.
Estas três idéias estão permeadas por graves equívocos conceituais e políticos.
Na dimensão conceitual, há uma grande dose de incompreensão acerca do instrumento no qual consiste uma conferência: sua forma, seus fundamentos, seus limites e suas potencialidades. Muitos atores sequer conseguem discernir entre os papéis e atribuições do Estado e da sociedade (nos seus diversos segmentos) na construção do processo.
Os erros nas formulações — sobretudo no terreno da estratégia e tática — e ações políticas são apenas a conseqüência prática dos lapsos conceituais.
Voltando às idéias que motivaram o presente texto, em primeiro lugar, o que garante a legitimidade de uma conferência setorial — um instrumento de democracia direta e participativa muito peculiar do Brasil — é a conjugação da forma de construção (transparente, aberta, horizontal e capilarizada) do processo com a presença ativa da sociedade, esta sim, razão maior e demandadora e destinatária primordial dos meios e fins deste processo.
Vale dizer que mesmo conferências setoriais convocadas apenas pelo Legislativo — caso de muitas conferências de direitos humanos e de educação e cultura — não foram ilegítimas pela ausência formal do Executivo. A presença deste, no entanto, se justifica pela (possibilidade de) maior efetividade nos desdobramentos das conferências.
No caso da Conferência de Comunicação, a participação de um setor que é fundado na lógica do lucro — frontalmente oposta à lógica da democracia e do interesse público — pode, respeitadas certas condições, qualificar o processo e fortalecer a eficácia do momento pós-conferência, o que não significa, de modo algum, ampliar a sua legitimidade. O vigor social e a validade política desse tipo de instrumento são conferidos justamente — em medida mais do que suficiente — por aqueles setores que reivindicam maior participação e poder de decisão.
A participação do empresariado é bem-vinda, sem dúvida. No entanto, jamais será condicionante da legitimidade de um instrumento que foi reclamado e conquistado exatamente para dar voz e vez a quem as tem negada pela hegemonia do capital, tanto nos vários entes do Estado quanto, sobretudo, nos meios de comunicação que se dizem defensores da liberdade de expressão para o conjunto da sociedade.
Os artífices do grande capital têm acesso direto, privilegiado e irrestrito ao Estado. No caso da comunicação, as empresas que historicamente controlam o setor possuem um representante dileto ocupando o principal posto da área no governo federal. Além disso, podem se reunir, a qualquer momento e sem qualquer óbice, com outros membros do primeiro escalão e mesmo com o Presidente da República. Só a ingenuidade — ou a predisposição para a conciliação indolor, mas inócua — justificaria a (suposta) crença de que os empresários participariam da Conferência Nacional de Comunicação movidos por sentimentos e objetivos democráticos.
Diante dessa constatação, o atual momento — dominado pela postura chantagista de parte do empresariado e, com isso, aberto a um possível golpe contra a Conferência, visando deslegitimá-la politicamente e evitar que seus resultados sejam acolhidos de bom grado pelo poder público — revela o tamanho do equívoco em que consistiram os insistentes esforços despedidos pelo campo popular-democrático da sociedade civil para incluir os empresários na construção do processo.
Uma coisa seria o governo convidar e buscar envolver os empresários da comunicação. Outra coisa foi uma certa ilusão — que acabou prevalecendo — entre as entidades e movimentos da sociedade civil de que eles não iriam sabotar um processo que se coloca explicitamente na contramão de seus interesses. O ônus dessa miragem é coletivo, sem dúvida, mas espera-se que sirva de lição para outras batalhas.
Em segundo lugar, o discurso de “defesa dos interesses nacionais”, especialmente por parte das emissoras de rádio e TV, é tão sólido quanto um castelo de cartas em meio a uma tempestade.
Os grupos que se autodefinem como guardiões da democracia brasileira são os mesmos que pediram, apoiaram, legitimaram e sustentaram o Golpe de 1964. E, antes disso, já haviam atuado de forma unificada na rejeição à criação da Petrobrás, mesma empresa que hoje querem desacreditar (perante a sociedade brasileira) e enfraquecer (no cenário internacional) no preciso momento em que ela encara o seu maior desafio — que coincide com a maior possibilidade de salto econômico que o Brasil poderá dar em toda sua história.
Estas empresas, que disseminam o preconceito e a violência simbólica contra os movimentos sindicais e sociais e chamam de “ditabranda” o regime de terror de Estado vigente por mais de duas décadas em nosso país, são as mesmas que atuaram sistematicamente a favor de projetos conservadores-entreguistas em absolutamente todas as eleições presidenciais desde 1989 e não têm qualquer pudor de acusar de terroristas aqueles lutadores que ousaram empunhar armas para resistir aos governos ilegítimos e tiranos que assaltaram a Nação a partir de 1964. Sem falar no grupo hegemônico do setor, que boicotou as Diretas Já! em 1984 e se envolveu diretamente em inúmeras tentativas de fraudes em eleições ao longo das últimas décadas.
Sobretudo, estas empresas são as mesmas que desrespeitam sistematicamente a Constituição e inúmeras normas jurídicas do país, no tocante ao monopólio e oligopólio na comunicação, no controle de concessões de rádio e TV por parlamentares, na asfixia da veiculação e da produção audiovisual regional e independente, entre muitas outras irregularidades.
Por fim, a ideia — percebida claramente nas entrelinhas do discurso de alguns atores — de que a conferência seria, na essência, uma grande mesa de diálogo com o empresariado e o governo, de modo a apontar diretrizes “possíveis” e “viáveis” para fazer avançar a comunicação no Brasil, se mostrou equivocada desde as primeiras reuniões da Comissão Organizadora Nacional. As máscaras caíram cedo.
Nem mesmo o princípio básico de participação majoritária da sociedade — excetuando-se os entes do Estado e os representantes do mercado — é aceito pelos empresários. Estes, com flertes positivos do governo, têm dado sinalizações de que irão exigir, para confirmarem sua participação, uma composição equivalente aos setores não empresariais — na proporção 40/40, restando 20% ao poder público — no universo de delegados para a conferência. Caso isso se confirme, a 1ª Conferência Nacional de Comunicação conseguirá a proeza de superar até mesmo o Congresso Nacional — que já é uma anomalia e uma ilegalidade — na super-representatividade de empresários da comunicação em relação ao conjunto da população brasileira.
Se ainda restava dúvida em alguns atores quanto à impossibilidade de conciliação com as empresas, a postura dos representantes destas na Comissão Organizadora deve ter apagado qualquer vã ilusão.
Na realidade, as conferências são arenas públicas de acirrada disputa de projetos e de concepções acerca dos temas em questão. O rebaixamento ou “recuo tático”, a priori, do programa das entidades é uma premissa que não precisa ser aplicada, visto que os resultados das conferências precisarão passar, obrigatoriamente, pelos filtros do Legislativo e do Executivo antes de se tornarem objetos palpáveis na realidade cotidiana. Aí, sim, neste campo da representatividade, com os seus ônus e bônus inerentes, o pragmatismo e a lógica da conciliação prevalecem e se traduzem na forma de leis, regulamentos, programas e outras categorias de políticas públicas.
Portanto, nenhum recuo e nenhuma concessão aos (tu)barões da mídia na 1ª Conferência Nacional de Comunicação! A participação política — além de ser a concretização do princípio da soberania popular que dá vigor a qualquer democracia — é um direito sagrado da sociedade e uma obrigação do Estado. Se as empresas de comunicação se dispuserem a participar da Conferência, sem impor condições ou desvirtuar a sua natureza, excelente. Caso contrário, sigamos em frente. O que não falta é trabalho a ser feito.
*Rogério Tomaz Jr. é jornalista, integrante do Intervozes — Coletivo Brasil de Comunicação Social e da Comissão de Liberdade de Expressão do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal

domingo, 9 de agosto de 2009

PHA: Fúria da Globo é em relação à Conferência de Comunicação

Em debate promovido pelo portal Vermelho, na sexta-feira (07), Paulo Henrique Amorim, do blog Conversa Afiada, disse que veículos como a Globo e a Folha de S. Paulo estão "exageradamente golpistas", em consequência da convocação da Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) e pela descoberta de petróleo na camada de pré-sal durante o governo Lula.
O debate "Como enfrentar o PIG - Partido da Imprensa Golpista" organizado pelo Portal Vermelho contou com a presença Paulo Henrique Amorim, da TV Record e do blog Conversa Afiada; Laurindo Lalo Leal Filho, ouvidor da Empresa Brasil de Comunicação (EBC); e Altamiro Borges, diretor do Vermelho.
Após o debate, a noite de sexta-feira foi marcada também pelo coquetel de lançamento de dois livros publicados recentemente pela Associação Vermelho: ''Comunicação pública no Brasil: uma exigência democrática'', organizado por Renata Mielli; e ''A ditadura da mídia'', de Altamiro Borges.
Bem-humorado, o jornalista Paulo Henrique Amorim citou mais uma expressão que passará a utilizar no blog Conversa Afiada: o "PUM do PIG", Programa Unificado da Mídia do Partido da Imprensa Golpista, expressão que utiliza para denunciar a atuação unificada dos grandes veículos de comunicação em torno de alguns objetivos.
Segundo ele, há dois exemplos em curso de PUM, o primeiro é a opinião do PIG de que, devido à ineficácia do gov Lula, o Brasil morrerá de gripe suína, e o segundo é derrubar Sarney. E então o jornalista ironiza: "O PIG descobriu que o Sarney é o Sarney".
Lula cometeu erro estratégico
PHA se apresentou cético em relação aos resultados da Confecom. Para o jornalista, o governo Lula cometeu um erro estratégico ao não criar bases institucionais para derrotar o "PIG". O jornalista também defendeu a implementação de políticas públicas de estímulo aos veículos alternativos e considera que o avanço mais significativo na comunicação seja o trabalho de democratização do acesso à internet, embora lamente o engavetamento do projeto da Ancinav.
Além da Confecom, Paulo Henrique Amorim citou a descoberta de petróleo na camada de pré-sal como um dos motivos recentes de fúria da grande mídia e comparou a descoberta ao momento da campanha "O Petróleo é Nosso" e a situação política que levou ao suicídio de Getúlio. Já o professor Laurindo Lalo Leal foi além: "o golpe que matou Getúlio e o que derrubou João Goulart foram organizados pela imprensa".
A América Latina avança
Lalo defendeu que os caminhos para enfrentar o PIG passam pela presença regulatória mais forte do Estado em relação às concessões de espectro e o estímulo a veículos contra-hegemônicos. O ouvidor da EBC discorreu sobre os avanços em termos da democratização da comunicação em diversos países da América Latina, destacando-se o investimento em rádio e em veículos públicos.
Quanto ao Brasil, considera que o principal avanço foi a criação da EBC. Entretanto, ressaltou que qualquer tentativa de regulamentação é rapidamente taxada pelos veículos da mídia hegemônica como censura e citou o próprio caso da classificação indicativa e também a Ancinav.
"O debate sobre o PIG está crescendo, e deixa de ser coisa para especialistas". Com voz de satisfação, foi com esta frase que Altamiro Borges, o Miro, iniciou sua intervenção no debate. O jornalista valorizou a forte presença de movimentos sociais na conferência estadual de comunicação de São Paulo e soltou: "comunicação contaminada faz mais mal à saúde que água suja".
Processo da Confecom é pedagógico
Miro avaliou que o processo da Confecom é pedagógico, ajuda na tarefa de estimular o senso crítico e acredita que mais pessoas estão se dando conta de que a comunicação é um direito e uma questão primordial à democracia.
E levantou algumas bandeiras a serem defendidas na Conferência: fortalecimento da rede pública; rediscussão das concessões públicas; inclusão digital; fortalecimento da radiodifusão comunitária; estabelecimento de critérios para a distribuição da publicidade oficial, visto que hoje 48% desta verba é destinada só para a TV Globo; controle social e a constituição de um novo marco regulatório para a comunicação no país. E finaliza: "além do grande esforço da TV Pública". Miro defendeu ainda a criação da "Sociedade de Amigos da TV Brasil"
Para Miro, para combater o PIG é necessário organizar o "PIB", Partido Independente dos Blogueiros, termo alcunhado pelo jornalista Luiz Carlos Azenha, do blog "Vi o mundo", que estava presente ao debate.
Miro defende que, respeitando a diversidade, a riqueza dos blogs e outros veículos alternativos, é urgente criar uma sinergia entre esses veículos. Neste tema, Paulo Henrique Amorim defendeu a constituição de um fundo público, sem vínculos partidários ou religiosos, para financiar veículos alternativos.
O PL do Senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) também foi citado como instrumento que tem o objetivo de cercear o uso da internet, considerado até então um espaço mais democrático.
Da Redação Vermelho, Por Luana Bonone