domingo, 22 de agosto de 2010

MUDAR DE OPINIÃO

Opinião é feito navio: a gente não abandona, afunda com ele se for preciso. Foi o que pensei desde criança, desde quando me convenceram de que assim estava certo. Agarrada naquele ponto de vista, fazendo da manutenção da opinião uma questão de honra, quando honra ainda era fundamental.


Foi isso que me disseram, e foi nisso que acreditei até certa hora. Depois pulei fora. Agora convivo serenamente com a evidência de que as minhas opiniões não são definitivas. E como o poeta americano Walt Whitman, tenho repetido frequentemente: “ você diz que eu me contradigo. Sim, eu me contradigo mesmo”.

Temos por hábito gostar da nossa cabeça bem arrumada. Opiniões já conhecidas, nos seus conhecidos lugares. Pensar parece assim mais fácil, viver parece mais seguro. Basta estabelecer os parâmetros iniciais, e tocar o bonde.

Os trilhos da vida, porém, não são tão paralelos. Crescemos, aprendemos, e de repente aquela bitolinha fica estreita demais, e o caminho traçado, que acreditávamos tão exclusivo, revela-se apenas um, entre tantos. É hora de mudar de opinião.

É hora, mas hesitamos: é? Seria? A incerteza nos pega pelo pé, o medo nos abocanha pelo estômago. E os preconceitos cravados na nuca, no pé do ouvido, murmuram que mudar de opinião é sinônimo de inconstância, que o bonito é manter-se firme nas próprias opiniões.

Mas, o mundo não se fez ficando parado e infelizmente, qualquer mudança de opinião encontra grandes resistências. Resistências de fora, em primeiro lugar. Os outros, ou seja, a sociedade como um todo não costuma gostar de pessoas questionadoras.

Mas a pessoa questionadora, a que está sempre repensando as coisas e procurando novos ângulos de visão, esta não é uma mobília bem comportada, um sofá em esquadro, é um ponto de interrogação no meio da sala, a exigir dos outros idêntica dinâmica. E esta dinâmica, a maioria, não têm, e não querem ter. Porque esta dinâmica assusta.

Mas antes de vermos por que assusta, quero fazer um desvio e dizer que, se todos sofrem violenta repressão às suas mudanças, nós mulheres sofremos muito mais. A mudança é logo vista como futilidade, como falta de segurança. “la donna è mobile, qual piuma al vento”, diz a ária de ópera ( “ a mulher é móvel, como pluma levada pelo vento”). Ou seja, vai onde o vento sopra, onde é levada e não onde deseja ir.

Mudanças de opinião, em nós mulheres, são vistas com maior espanto, porquanto é tido como certo que não temos opinião alguma, e então, como mudar o que não existe? Hoje até o fato de reivindicarmos o direito de ter opiniões aparece como uma mudança.

Feito o desvio, vamos voltar ao medo que mudar de opinião desperta em todos nós. Sim, todos nós temos dificuldade em pegar uma idéia que já tínhamos e esquartejá-la, minuciosamente estudar-lhe as víceras, para depois decidir se é o caso de recompô-la ou de transformar o exame em autópsia e enterrar logo o cadáver. Todos nós hesitamos. Por quê?

a - Porque poucas coisas são tão confortáveis quanto uma idéia velha. Não precisamos quase raciocinar para defendê-la, basta desfiar o rosário das frases com que a estruturamos ao longo dos anos, ou repetir os conceitos de que ela veio acompanhada quando nos foi vendida. Uma idéia já conhecida e explorada não nos causa ansiedade, não nos ameaça, vem mansamente ao trote quando a convocamos, dócil cavalo de batalha, e se insere sem alarde entre as outras rotinas da nossa vida. Uma idéia velha não nos exige.

b - Abrir mão seja do que for sempre é difícil. E mais difícil, fica no caso das opiniões, quando, sobre elas outras coisas foram construídas. Abrir mão de uma opinião significa abrir mão dela e de outras que lhe são ligadas, e, em cadeia, de um determinado comportamento. Abrir mão de uma opinião é, em última análise, abrir mão de um pedaço de si e nada mais natural do que hesitar diante dela.

c – Toda mudança causa conflito. Isto porque toda mudança implica em avaliação e julgamento. Para trocar uma opinião por outra, preciso confrontar as duas, julgar sua validade decidir qual me parece melhor. Esse julgamento, essa decisão ao salto, assusta.

d – Se hoje penso de um jeito a respeito de determinada coisa e amanhã decido mudar, será necessário reconhecer que meu pensamento estava errado, ou que, pelo menos, tornou-se errado em determinado momento. Será preciso reconhecer meu próprio erro. E quantos gostam disso?

e – Uma opinião importante é um modo de ser e de viver. Nossos amigos, nosso grupo, nossos parentes estão acostumados com nossas opiniões. Mudar uma opinião significa muitas vezes ter que enfrentar o nosso grupo. E sabemos que o grupo tudo fará para nos manter como éramos, do jeito que já nos conheciam, nos aceitavam, do jeito que tornou possível nosso entrosamento. A mudança de um dos elementos do grupo é vivida pelo grupo como ameaça de desintegração, de modificação generalizada, e é consequentemente combatida. Sabemos, portanto que mudar de opinião nos exigirá trabalho, explicações, discussões. Uma luta, enfim, pequena ou grande, mas uma luta de oposição às pessoas que mais queremos.

f - E numa luta, por menor que seja, temos sempre duas possibilidades: ganhá-la ou perdê-la. Podemos, por causa de uma opinião, perder o afeto ou até a estima de pessoas a nós ligadas. Podemos dialogar convencer, mas corremos sempre o risco de subitamente perder a aceitação do outro e abrir distâncias insuperáveis. O medo dessa possível perda está presente, ainda que nem sempre conscientizado, ao enfrentarmos o processo de uma mudança de opinião.

g – E outro medo se engancha no nosso pé. O medo do desconhecido. Abro mão da idéia velha, meu confortável chinelo, em troca de uma idéia nova. Não só terei que amaciá-la, e a mim com ela, mas terei que reorganizar minhas idéias todas, rever o resto. E certamente sairei mudada, ainda que pouco apenas, ainda que parcialmente. Que eu mudada serei então? Não sei, não tenho como saber. E o não saber me assusta.

De tanto falar em medos, estou aqui quase espalhando o pânico. Que essa conversa sirva para o entendimento, mas não nos assuste. São vários medos, mas enfeixados em um só, e não tão forte a ponto de impedir que as opiniões mudem constantemente.

Enfim, a nossa história é a história das nossas mudanças de opinião. “Quem pretende uma felicidade e uma sabedoria constante deveria acomodar-se a frequentes mudanças”.

Esquecidas das enormes mudanças de que fazemos parte relutamos às vezes em mudar uma pequena opinião. Mas por que estaríamos condenadas à prisão de idéias gradeadas, se tudo ao redor anda?

Porque mudamos individualmente, e individualmente corremos os riscos da mudança, mas nosso comportamento e nossa escolha se inserem no conjunto mais amplos. Podemos viver nossa mudança em solidão, precisando de mais energia para derrubar a reação ainda compacta contra nosso gesto. Ou, mais prudentes, chegamos à mudança quando um maior número de evidências se acumula e já encontramos vozes em que nos apoiarem. Tempo e momento, cada um faz o seu. Importante é a convicção.

Taí uma palavra sem a qual se invalida tudo o que dissemos: convicção. Esta é alavanca fundamental para qualquer, verdadeira, mudança de opinião. Mudar de opinião por insegurança, para acompanhar os outros, para não ficar por fora, pode fazer de nós figuras patéticas.

Mas opinião não é honra, opinião não é jura, opinião não é sobrenome, carga genética, nada que não se possa mudar. Se hoje você diz uma coisa, e amanhã percebe que não concorda mais com o que disse, pode não se tratar de inconstância, mas de lucidez. Isso é claro, se depois de amanhã você não pensar de outra maneira, e no dia seguinte tornar a mudar, como uma ventoinha.

O normal, o saudável é mudar. Assim, também no amor nos tornamos mais acessíveis na medida em que somos capazes de rever nossas posições, e de mudá-las quando necessário. Temer que o outro enxergue nossas mudanças como fraquezas e delas se aproveite contra nós ou contra a relação, subjugando-nos, é não ter confiança no outro, nem em nós mesmas. E, nesse caso, tampouco adiantaria cravarmos os pés irredutivelmente numa única posição.

Mas, para mudar, é conveniente fazê-lo com justeza. E a justeza, onde está?

Não sei, nem ninguém sabe, pois é preciso desencavá-la a cada vez, entre pedras, cactos e tantos arremedos de justeza. Sei, talvez, como me armar para procurá-la melhor. É meu armamento individual, mas talvez sirva a outros.

Preciso, eu sei, ter confiança em mim, na minha capacidade de ver, no meu discernimento. Sempre haverá quem queira me demover, e com belos argumentos, cantos de sereia. Ao contrário de Ulisses que botou cera nos ouvidos para não ouví-los, eu deverei abrir bem os meus e deixar que entrem os cantos todos, para sopesá-los. A fé na minha balança, a mim cabe.

Sei que até o fato de eu ser mulher será em algum momento usado, direta ou indiretamente, para me demover. Tentarão me convencer de que sou fraca, mais suscetível a engodos, inocente. Mas exatamente o fato de ser mulher me servirá de fortalecimento. Pois sei que por ser mulher que tenho que ser mais aguerrida, e por ser uma mulher que questiona sou mais lúcida do que tantos.

Preciso, eu sei, de dados. É com o conhecimento que consolido e comprovo minha sensibilidade. É com o conhecimento que construo argumentos.

E tendo os dados, preciso do hábito da análise para saber interrogá-los. Se me acostumo a aceitar tudo o que me dizem, sem questionar, sem elaborar, será difícil, impossível quase, encontrar caminhos novos, que sejam os meus. A análise se afia na prática, no exercício diário, na observação de análises alheias. A análise é pôr em dúvida, submeter a exame, comparar. A análise é o jogo que realizamos entre a tese e antítese, para chegarmos à sintese. A análise é um dos mais comoventes exercícios da mente.

Tendo fé em mim, tendo os dados e a capacidade de análise, que não me falte ainda assim a humildade de pedir explicações. Não entender, ou entender mal, é direito do qual não abro mão. E é contingência da qual não devo me envergonhar. Quando alguma verdade ou suposta verdade me for servida em belo prato, nunca começar a comê-la sem antes verificar os ingredientes de que se compõe.

Assim talvez seja mais possível o acerto nessa galeria de espelhos que o mundo se esmera em fabricar para nós. Assim, pelo menos, mesmo errando, poderei chegar a uma conclusão que seja a minha, e que eu tenha não só forças como prazer em defender.

Nenhum comentário:

Postar um comentário